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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O malvado homem laranja que é malvado e laranja (por Igor Gaviano)

    De acordo com fontes confiáveis (minha experiência nos últimos 20 minutos), 9 a cada 10 posts em redes sociais são de pessoas ou indignadas pela vitória do candidato à presidência Joe Biden ou felizes pelo ocorrido.

    Deixando de lado o fato de que, oficialmente falando, Joe Biden ainda não foi eleito como presidente dos Estados Unidos, algumas coisas chamam a atenção enquanto lemos essas discussões e perdemos nosso tempo com xingamentos e frivolidades na internet.

Mas como não sou conhecido como alguém que consiga resistir a uma boa polêmica, por que não colocar mais lenha na fogueira e falar um pouco sobre o vovô Joe e o malvado homem laranja?

FIRST THINGS FIRST

    Antes de tudo, vamos tirar do meio do caminho os red herrings e partir para o que interessa de fato (apesar de gastar tempo com coisas inúteis, nem mesmo eu tenho o suficiente para gastar respondendo a afirmações toscas!)

    A Deputada Federal Chris Tonietto (por quem tenho grande admiração) recentemente fez a seguinte postagem em seu Facebook:


    Dentre os comentários mais relevantes, saltam aos olhos dois deles. No primeiro, alguém deseja colocar como ilegítimo e caracterizar como "pitaco" todo e qualquer comentário acerca das eleições americanas:


    O fato é o seguinte: queira ou não queira, goste ou não goste, os Estados Unidos são a segunda maior economia e o país com a maior força militar global. O Vale do Silício, ademais, é um polo de tecnologia tão grande e universal que qualquer flutuação no capital gerado por ele impacta qualquer pessoa em todos os quatro cantos da Terra. Então sim, a eleição americana importa e nós não apenas daremos pitaco como devemos dar.

    Além disso, digamos, apenas pelo argumento, que essa boa senhora estivesse certa. A política das outras Nações não nos impacta de maneira alguma (quanta ingenuidade! Mas vá lá), e não devemos meter o nariz aonde não somos chamados. Justo. Todavia, o máximo que isso prova é que não teríamos motivos próprios ou egoístas para nos importar com o que se passa em outros lugares do mundo, e é evidente que esse não é o único motivo pelo qual podemos nos importar e lamentar profundamente algum acontecimento.

    Veja o seguinte cenário (e não chore! Não estou dizendo que é uma analogia exata ou nada assim, apenas entenda o que estou tentando ilustrar): suponha que um político que é a favor da tortura e extermínio de certa etnia é eleito líder de algum lugar do mundo bem remoto, e que provavelmente provocará impacto nulo ou próximo disso em nosso dia-a-dia, seja o que for que aconteça com os assuntos internos do país.

    Pergunta: lamentar o ocorrido seria uma instância de dar "pitaco" em eleições alheias, ou seria algo ilegítimo porque não te impacta diretamente?

     Não precisa responder, já que a resposta é um claro e forte NÃO.

    Na verdade, isso é um evidente sinal de virtude, visto que, mesmo que o ocorrido não impacte o mínimo em sua vida cotidiana, sua consciência alerta e cria empatia pelas pessoas que serão afetadas pelo regime genocida, seja ele onde for. Analogamente, é justo e mesmo virtuoso se compadecer de uma nação que, na sua opinião, sofrerá por conta da eleição de um novo representante como, a meu ver, ocorrerá com os Estados Unidos sob (potencialmente) Joe Biden.

    O que nos leva ao segundo comentário da noite (pegue sua pipoca!):


    Você pode pensar que esse comentário foi irônico tendo em vista a publicação, contudo, olhando as respostas a ele, é evidente que na verdade ela está sendo completamente direta e sincera, o que é altamente preocupante. 
    
    Não é preocupante pelo fato de apoiar o candidato X ou Y, sobre isso podemos ter uma boa discussão, mas porque precisamente concede ao ponto da deputada e mesmo assim vê coisas abjetas como dignas de reconhecimento e aplauso.
    
    Chegamos ao ponto de, quando falamos de aborto sem limite, ao invés de traçar distinções e falar do tema com alguma delicadeza (o que era feito até mesmo pelos abortistas há alguns anos), a pessoa cede completamente ao argumento e chama de sensatez um claro ato de loucura.
    
    Isso sem entrar no mérito de "crianças transgênero" (o que, por mais triste que possa ser, está longe de ser invenção de uma direita conspiracionista), que por si só é uma grande loucura. Os pais que promovem esse tipo de decisão dos seus filhos - os quais não têm o cérebro desenvolvido o suficiente para escolher as próprias roupas, quem dirá tomar uma decisão definitiva como essa - devem ser punidos e o conselho tutelar deve ser prontamente alertado. E não, isso não deveria ser objeto de séria controvérsia.

    Essa longa discussão nos leva a duas conclusões:
        
I. Podemos e devemos discutir sobre a política de outros países, mesmo que (se hipoteticamente fosse o caso) elas não nos impactem pessoalmente em nada;
II. Qualquer discussão racional pressupõe o mínimo de terreno comum, e não é chamando loucura de sanidade que se consegue isso.

    Tiradas essas conclusões, finalmente podemos falar do...

MEAN BAD ORANGE MAN WHO'S BAD AND ORANGE

    Se há uma coisa que os comentários acima mencionados ilustram é o suicídio do pensamento a que nossa sociedade está submetida.

    Olhando a campanha do Partido Democrata desde o começo do ano até o presente momento, percebe-se que o tom em que falam não difere muito daquele dos nossos queridos comentaristas. O argumento inteiro do Partido se resume, nas palavras de Ben Shapiro, ao fato de que Donald Trump é um "malvado homem laranja que é malvado e laranja" e, independentemente de quem estiver concorrendo contra ele, é contra um fascista que está concorrendo, e o fascismo deve ser combatido a todo custo!

    Que isso é muito perigoso dispensa comentários. A começar pela alegação de que Donald Trump é um fascista, nazista, o que queira. O que exatamente isso significa? Que ele intencional e deliberadamente matou ou contribuiu para a morte milhões de pessoas, promoveu censura dos veículos de mídia ou um fechamento absoluto do país? 

    Se significar isso, é muito difícil sustentar o argumento de que Donald Trump é um fascista. E é nesse momento em que as pessoas passam a apontar seus famosos e inconvenientes Tweets.

    Sim, Donald Trump não é flor que se cheire, estou disposto a conceder até ai. Ele não é o exemplo de ideal cristão e o seu rosto não estará no vitral de catedrais, medalhas ou ícones depois que ele falecer. Ele não será canonizado pela Igreja Católica e não será lembrado como um exemplo a ser seguido por quem quer que seja. Mas, mesmo assim, isso não significa que ele seja um racista, fascista, nazista, etc. Os seus Tweets são às vezes inconvenientes e equivocados, mas chamá-lo dessas coisas sem evidências concretas e diretas apenas leva a um resultado: ao esvaziamento e perda de significado de palavras que deveriam ser usadas para descrever situações gravíssimas e específicas, e que são usadas como vírgulas e interjeições.

    Na verdade, na política em si é difícil encontrar qualquer exemplo de flor que se cheire, sobretudo quando se fala de políticos muito poderosos como os que eventualmente concorrem a altos cargos no governo, e Joe Biden não é exceção. Além da já antiga e conhecida situação Ucraniana em que supostamente estaria envolvido junto à sua família, basta olhar para o tipo de atitude que ele tem perante a vida. Seria honesto e sincero um homem que, depois de ter sua esposa tirada de si por um acidente de trânsito em que aparentemente não houve culpado, sugere que o motorista que bateu no carro estava bêbado, apenas para propósitos políticos?
    
    E que tal a afirmação contínua e persistente de que Donald Trump é responsável por toda e cada uma das mortes causadas por um vírus do qual tínhamos nenhum ou pouquíssimo conhecimento a respeito? Será que é justo acusar o presidente do país disso, sendo que os EUA são uma federação e dentre os estados mais afetados estão muitos controlados por democratas?

    Ou mesmo a afirmação de que Trump não condenou os Supremacistas Brancos, como a KKK, sendo que ele o fez repetidas vezes? Será que é esse o exemplo de pessoa que queremos colocar num pedestal?

    De novo, meu ponto não é defender o Trump e todo absurdo que ele eventualmente fale, mas apenas apontar que falhas de caráter temos nós todos, e os políticos especialmente não são bem conhecidos por serem pessoas de caráter inabalável (incluindo o vovô Joe).

    Mas se o argumento de que Trump é um homem malvado e laranja não cola, de modo que defender o que ele defende não necessariamente é uma depravação moral, será que devemos lamentar ou exaltar a sua (novamente suposta) derrota?

C'MON MAN!

       Se eu tirasse meu "chapéu de conservador" e colocasse meu "chapéu de cidadão americano comum", eu consigo ver vários aspectos nos quais o Presidente Trump cumpriu um excepcional mandato.

    Até que começasse a pandemia da COVID-19, na verdade, o índice de desemprego nos Estados Unidos se encontrava numa baixa histórica, e a economia deslanchou tanto nos últimos 4 anos que 56% dos americanos se dizem melhor agora do que quando o mandato de Trump começou.

    Ora, isso é algo a se pensar a respeito!
    
     Além disso, recentemente o governo e sua política externa promoveu um acordo que gerará paz não vista no Oriente Médio em décadas. Para um fascista até que ele sabe promover a paz afinal!

    Mas não posso deixar de falar dos assuntos que mais me impactam. Coloquemos novamente meu "chapéu de conservador".

    Apesar de ser "católico", de catolicismo em suas visões sociais não há nada, e não é a toa que lhe foi negada a comunhão em uma Santa Missa à qual compareceu. Como já citado, ele apoia não apenas a legalização do aborto, mas o seu financiamento direto pelo Estado. Ele apoia não apenas o financiamento público de contraceptivos, mas que seja obrigatório que até mesmo organizações religiosas e contrárias à prática contribuam para isso. Ele apoia diretamente a ideologia de gênero e políticas associadas a ela...

    Infelizmente, exemplos assim podem ser multiplicados ad nauseam, o que, para qualquer conservador, deve ser suficiente para lamentar uma eventual eleição de Joe Biden. E não para por aí, pois há um último ponto...

THE SLEEPY JOE

    Se eleito, Joe Biden será o presidente eleito mais velho da história dos Estados Unidos, e claramente sofre de acentuado declínio mental (com gafes que também podem ser facilmente multiplicadas). 
    
    O real problema disso, contudo, é que ele não estará capacitado para tomar as decisões da maior economia do mundo. Isso apenas contribuirá para que sua vice-presidente (que foi classificada como a membro mais liberal do senado) tome grande parte do poder que na verdade seria devido ao presidente.

    Se isso é lamentável na mente de um conservador? A resposta deve ser evidente a esta altura do campeonato...

OK. SO...

    O leitor atento até agora pode me acusar de estar tendo um meltdown perante uma possível vitória de Joe Biden, sendo que não será tão grande coisa assim. E ele teria razão, em parte.

    A vitória de Biden não tem tanta significância quanto poderia ter porque, ao contrário do que foi garantido a todos pelas estatísticas, os republicanos provavelmente controlarão maioria no Senado. Isso potencialmente impede a confirmações de juízes ligados aos democratas para a Suprema Corte (ao contrário do que aconteceu no caso da estupenda Amy Conney Barret), o que trabalhará a favor da causa conservadora e pode contribuir para que decisões importantes estejam a caminho.

    Contudo, é evidente que seria possível reivindicar essas causas com muito mais vigor caso os republicanos controlassem ambas as instâncias de poder e, para mim, esse é o real motivo de pesar.

P.X. 
Igor Gaviano







    

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