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terça-feira, 27 de maio de 2025

Apenas católico - reflexões de um quarto de século (por Igor Gaviano)



   
Sendo impossível arbitrariamente e instantaneamente deter o turbilhão de pensamentos recentes, decidi
removê-los do intelecto e despejá-los em binários computacionais. Com mais espaço na mente, espero ter mais tempo para me dedicar às não-importâncias mais importantes da existência - remover o lixo, ninar a criança e especialmente ter uma boa noite de sono.

    O que me mantém acordado às 5h da manhã - para além do brilho infernal das telas - é o constante pensamento de que não há mais norte. A bússola moral e intelectual capta diversos campos magnéticos, e o ponteiro não parece decidir por um rumo final. Uma verdadeira disputa é travada entre mim e mim mesmo, pois para cada argumento há mil objeções - e para cada objeção há mil argumentos.

    Deteve-me essa manhã no entanto o pensamento de que o que me falta é a simples e natural calma de apenas poder ser católico.

    Tentam-me persuadir e puxar para diversos lados. Há Pedro, não há Pedro. Acalma-te e aquieta, levanta-te e lute. Há continuidade, há ruptura. Às vezes penso se não foi essa a Cruz que o senhor enviou ao dito “homem contemporâneo”: aquela em que os furos para os cravos estão muito distantes. Assim, cada um de nossos braços é constantemente e rigidamente alongado, puxado com igual força e igualmente tensionados para cada um dos lados. A única maneira de caber na cruz é deslocando um dos membros - cabalmente deixando algo fora do lugar.

    Não. Não se pode culpar a Deus pelos flagelos humanos. No entanto, Deus muito bem pode permiti-los para tirar deles uma lição maior. E qual seria essa lição? Só Ele sabe.

    Mas Ele também nos deu um intelecto com o qual podemos nos aventurar na terrível mania de especular.

Você pensa demais! Apenas abaixe a cabeça e frequente a paróquia na esquina. Isso é o catolicismo normal que você tanto procura.

    Justa observação e perfeitamente válida - em tempos ordinários. Nos tempos extraordinários em que nos encontramos, no entanto, ceder ao modus operandi do catolicismo atual infelizmente significa ser um estrangeiro para todo o Cristianismo precedente. O viés moderno, infelizmente inoculado em nossas Paróquias e Comunidades, pretende fazer do homem um novo homem: um homem evoluído, um Super-Homem.

    Eu, porém, não quero ter a pretensão de desnivelar-me dos homens do passado. A pretensão de desnível causa apenas isso - desnível - e não necessariamente da forma como pretendia-se inicialmente. Colocando-se acima do passado, apenas demonstramos categoricamente o quão abaixo dele nos encontramos. Quero nivelar-me com os homens do passado, tendo a certeza de que temos um vínculo carnal - pode dizer-se original - em termos gerais. Em termos particulares, no entanto, quero mais urgentemente nivelar-me aos homens católicos do passado - pois nossa irmandade não baseia-se no decaimento da carne mas na Paternidade de Deus.

    Não quero ser fiel pós-conciliar, tradicionalista, conservador. Essas são rígidas tensões, tensões que necessitam de algum tipo de ruptura para caber na cruz. Quero a flexibilidade do puro e simples catolicismo - um catolicismo que não se move conforme o mundo, mas que move o mundo. O catolicismo de Roma, Antioquia, Atenas. O catolicismo de Nicéia, Calcedônia, Constantinopla. O catolicismo de Trento. O catolicismo de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São João Damasceno, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, São Filipe Neri, Santo Afonso de Ligório, São João Bosco, São Pio X, São Pio de Pietrelcina.

    Não quero ser Sedevacantista, mas também não quero ser um “Sedevacantista retroativo” que, de forma prática, assume que a Igreja começou há 60 anos. Esta opinião encontra-se claramente na bem difundida tendência de tratar o último Concílio como um Super-Concílio e o magistério recente como um Super-Magistério - talvez porque apenas eles sejam dignos do moderno Super-Homem (para bem ou para mal!). 

    Quero entender a luz perene do Magistério em consonância com os séculos. Acima de tudo, não quero uma maneira nova de ser católico - quero apenas ser católico.

P.X.,

Igor Gaviano


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