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domingo, 15 de junho de 2025

Uma hipótese



O que é um texto? Se um texto for a lista de símbolos que ele representa, duas pessoas diferentes podem ler o exato mesmo texto e ter interpretações diferentes — desde que os símbolos signifiquem coisas diferentes para essas pessoas. Isso também significaria que traduções seriam impossíveis. Por exemplo, as proposições: “O Céu é Azul” e “The Sky is Blue” têm o mesmo sentido, mas são escritas em línguas diferentes. Disso decorre que o texto é o significado por trás desse mesmo texto, e uma proposição pode ser julgada como verdadeira ou falsa a partir do significado original.

Digamos que exista uma língua chamada “tortuguês” e que, nessa língua, “Azul” signifique “Rosa” e “Rosa” signifique “Azul”. Ora, se um falante de tortuguês afirmasse para mim (consideremos que desconheço sua excêntrica linguagem) que o “Céu é Rosa”, o sentido original, isto é, o significado da proposição, continua verdadeiro, porque em sua linguagem “Rosa” significa “Azul”. Eu, porém, sem o contexto original do brevíssimo dicionário de tortuguês (há apenas duas palavras: Rosa e Azul), estaria justificado em ter sua afirmação como falsa.

Agora suponhamos que, depois de eu expulsar o tal falante de tortuguês da minha frente com sua terrível e absurda proposição de que o “Céu é Rosa”, eu convocasse um grupo de amigos falantes do verdadeiro português para condenar a proposição de — o apelidemos de — Tigor. Então, suponhamos que formulássemos uma declaração conjunta que afirmasse que o Céu é, de fato, Azul, e não Rosa. Nesse caso, estaríamos completamente justificados — e talvez, quando compreendêssemos que Tigor, na verdade, era falante da estranha língua do tortuguês, pudéssemos dar boas risadas e reconciliar-nos na mesma verdade de que “O Céu é Azul”, sendo que, em tortuguês, “Azul” quer dizer “Rosa” e “Rosa” quer dizer “Azul”.

Agora suponhamos que, nesse grupo de amigos — a Sociedade do Azulamento Terrestre — eu tenha deixado escapar que um desses mesmos camaradas era, em oculto, um falante de tortuguês: Talvino. Talvino partilhava da estranha ideia de que o Céu era, de fato, Rosa — e não digo em tortuguês, mas em português puro e claro! Não que ele conhecesse o português — apenas digo que “em seu sentido último ele acreditava nessa proposição”.

Ora, em tortuguês, ele acreditava, então, na proposição de que “O Céu é Azul” — e certamente achou curioso que havia tantas outras pessoas que partilhavam — do que ele chamava, ao menos — de seu Azulismo. Bom, de todo modo, Talvino não tardou em assinar a declaração conjunta e condenar Tigor como um execrável Rosista.

O problema veio quando, após a reunião condenatória, surgiu a ideia de se elaborar um brasão para a recém-fundada sociedade. Talvino foi o encarregado e a única conclusão a que chegou, após algumas horas, foi a de que a cor central deveria ser, obviamente, Azul! Ora, imagine o espanto da Sociedade quando se deparou com o esboço, simples, mas significativo, de seu novo brasão. Desnecessário dizer que, após esse episódio, Talvino foi expulso por sua obstinada e persistente adesão ao Rosismo.

Após esse longo, talvez confuso e mesmo repetitivo conto, o questionamento que fica é se eu e Talvino, de fato, assinamos a mesma declaração — e se os Talvinistas deveriam se preocupar com o fato de que a assinatura de seu fundador está ao lado da de pérfidos Azulistas. Parece-me que não há peso algum sobre o fato de que ambos os partidos assinaram a declaração original — em verdade, assinaram textos diferentes. 

P.X.,

Igor

terça-feira, 27 de maio de 2025

Apenas católico - reflexões de um quarto de século (por Igor Gaviano)



   
Sendo impossível arbitrariamente e instantaneamente deter o turbilhão de pensamentos recentes, decidi
removê-los do intelecto e despejá-los em binários computacionais. Com mais espaço na mente, espero ter mais tempo para me dedicar às não-importâncias mais importantes da existência - remover o lixo, ninar a criança e especialmente ter uma boa noite de sono.

    O que me mantém acordado às 5h da manhã - para além do brilho infernal das telas - é o constante pensamento de que não há mais norte. A bússola moral e intelectual capta diversos campos magnéticos, e o ponteiro não parece decidir por um rumo final. Uma verdadeira disputa é travada entre mim e mim mesmo, pois para cada argumento há mil objeções - e para cada objeção há mil argumentos.

    Deteve-me essa manhã no entanto o pensamento de que o que me falta é a simples e natural calma de apenas poder ser católico.

    Tentam-me persuadir e puxar para diversos lados. Há Pedro, não há Pedro. Acalma-te e aquieta, levanta-te e lute. Há continuidade, há ruptura. Às vezes penso se não foi essa a Cruz que o senhor enviou ao dito “homem contemporâneo”: aquela em que os furos para os cravos estão muito distantes. Assim, cada um de nossos braços é constantemente e rigidamente alongado, puxado com igual força e igualmente tensionados para cada um dos lados. A única maneira de caber na cruz é deslocando um dos membros - cabalmente deixando algo fora do lugar.

    Não. Não se pode culpar a Deus pelos flagelos humanos. No entanto, Deus muito bem pode permiti-los para tirar deles uma lição maior. E qual seria essa lição? Só Ele sabe.

    Mas Ele também nos deu um intelecto com o qual podemos nos aventurar na terrível mania de especular.

Você pensa demais! Apenas abaixe a cabeça e frequente a paróquia na esquina. Isso é o catolicismo normal que você tanto procura.

    Justa observação e perfeitamente válida - em tempos ordinários. Nos tempos extraordinários em que nos encontramos, no entanto, ceder ao modus operandi do catolicismo atual infelizmente significa ser um estrangeiro para todo o Cristianismo precedente. O viés moderno, infelizmente inoculado em nossas Paróquias e Comunidades, pretende fazer do homem um novo homem: um homem evoluído, um Super-Homem.

    Eu, porém, não quero ter a pretensão de desnivelar-me dos homens do passado. A pretensão de desnível causa apenas isso - desnível - e não necessariamente da forma como pretendia-se inicialmente. Colocando-se acima do passado, apenas demonstramos categoricamente o quão abaixo dele nos encontramos. Quero nivelar-me com os homens do passado, tendo a certeza de que temos um vínculo carnal - pode dizer-se original - em termos gerais. Em termos particulares, no entanto, quero mais urgentemente nivelar-me aos homens católicos do passado - pois nossa irmandade não baseia-se no decaimento da carne mas na Paternidade de Deus.

    Não quero ser fiel pós-conciliar, tradicionalista, conservador. Essas são rígidas tensões, tensões que necessitam de algum tipo de ruptura para caber na cruz. Quero a flexibilidade do puro e simples catolicismo - um catolicismo que não se move conforme o mundo, mas que move o mundo. O catolicismo de Roma, Antioquia, Atenas. O catolicismo de Nicéia, Calcedônia, Constantinopla. O catolicismo de Trento. O catolicismo de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São João Damasceno, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, São Filipe Neri, Santo Afonso de Ligório, São João Bosco, São Pio X, São Pio de Pietrelcina.

    Não quero ser Sedevacantista, mas também não quero ser um “Sedevacantista retroativo” que, de forma prática, assume que a Igreja começou há 60 anos. Esta opinião encontra-se claramente na bem difundida tendência de tratar o último Concílio como um Super-Concílio e o magistério recente como um Super-Magistério - talvez porque apenas eles sejam dignos do moderno Super-Homem (para bem ou para mal!). 

    Quero entender a luz perene do Magistério em consonância com os séculos. Acima de tudo, não quero uma maneira nova de ser católico - quero apenas ser católico.

P.X.,

Igor Gaviano


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Aprender a desatar-se das amarras do passado (por Igor Gaviano)


«Eu confesso que é esta a minha dor:

‘A mão de Deus não é a mesma: está mudada!’» (Sl 76) 

    

    O homem atado consome-se em sua angústia e esta o priva do descanso. Em meio às trevas do ocaso as tentações passam a aflorar-se e a revelar à alma a verdadeira escuridão que a vida interior proporcionará aos que não escutam e guardam toda a Palavra... E aos que a escutam com atenção. Os olhos turvos pelos sentidos trazem à tona a vulnerabilidade do egoísmo e buscam consolo na mundaneidade. O inimigo desvela-se para desferir seu ataque.

    A forma revelada pelos anjos decaídos é não tanto a de bestas ferozes mas a dos tormentos agonizantes de um passado frustrado. Antigos retratos, cartas apaixonadas e presentes carinhosamente preparados: tudo isso que fora fonte de júbilo agora torna-se pedra de tropeço para uma noite pacífica. A pintura retratada pelas imagens que vem à memória clama por um explicação: «Teria eu vivido uma mentira, uma piada de mau gosto?».

    Não... Ou ao menos é aquilo em que o sujeito tenta acreditar para que não passe uma noite a mais em claro.

    Raciocinando em vão, a mente entra num embate solitário na tentativa de penetrar suas dúvidas mais profundas. O homem passa a ter duas cabeças e um só coração, já transpassado pelo desgaste. Seu olhar busca refúgio em sinais visíveis de um passado invisível, sacramentos da história.

    Um colar não é mais apenas um colar, mas uma jura de amor; um retrato torna-se uma planificação da tridimensionalidade de alegrias vividas; as cartas são verdadeiros testamentos de fidelidade. Os nobres sentimentos, repentinamente frustrados, transmutam-se em agonia fermentada pelo pó da terra. O homem novo cede lugar ao homem velho, tomado pelo rancor e sedento de uma pérfida vingança.

    Diz consigo mesmo, como o salmista:

«Eu confesso que é esta a minha dor:

‘A mão de Deus não é a mesma: está mudada!’» (Sl 76) 

    E tudo parece ruir em sua inescapável melancolia.

    Há aquele, no entanto, que busca saciedade não no pão do mundo mas no Pão do Céu advindo de escutar a Palavra e a pôr em prática. No desespero de um turbilhão de ideias mal organizadas recorda-se dos ditos seguintes do mesmo salmista:

«Mas, recordando os grandes feitos do passado,

vossos prodígios eu relembro, ó Senhor; 

– eu medito sobre as vossas maravilhas

e sobre as obras grandiosas que fizestes. » (Sl 76) 

    A sabedoria do Gólgota na Sexta-Feira da Paixão, onde apenas escutava-se os prantos copiosos da Virgem e via-se a luz gélida de uma Lua cheia, é aquela que porfim põe termo à melancolia, pois os gemidos de um coração ferido pela espada, ainda que sejam agonizantes, são distintos em qualidade daqueles advindos dos rancores do passado. O coração que escuta a Palavra com atenção e a guarda como um tesouro não é privado de agonias, mas permanece em repouso sereno assegurado da esperança da vida futura.

    A solução, portanto, é deixar-se afligir pelas angústias da vida com a firme convicção de que o Senhor acalmará a tempestade - mesmo que Ele próprio esteja em sono profundo - e recordar os grandes feitos do passado, ou seja, a obra que Deus pretendeu operar através da permissão das frustrações. Deve-se permitir que o passado se consuma numa fornalha ardente e que suas brasas flamejantes não resultem no incêndio do chalé interior mas no combustível da alma operada pela graça.

    Não é necessário sacramentos da história enquanto se possui sacramentos da eternidade.


P.X.,

Igor Gaviano


sábado, 22 de outubro de 2022

A coragem face ao desespero (por Igor Gaviano)

 

“As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.” (Mt 8, 20)

    O mundo moderno transborda em promessas. Basta que sigamos os ditames da modernidade e seremos verdadeiramente felizes, temos por garantia de nossos soberanos. Uma vez que a patente falsidade de tão louca afirmação se encontra com a realidade individual da tristeza, surge o desespero.

    Uma vez presente o sentimento de impotência, dá-se a segurança de que é porque não nos conformamos verdadeiramente ao ideal. Mas soluções para isso também foram boladas: 《falta-lhe a realização de sua sexualidade》, 《não se preocupe, há sempre Prozac》, 《você não atingiu a verdadeira libertação dos carcereiros dos bons costumes》.

    Pois são estes, os "carcereiros" que pregam os bons costumes, a verdadeira raiz de todos os problemas psíquicos da sociedade, ao menos de acordo com os ditos "especialistas" que pretendem saber exatamente do que se trata o desespero do homem moderno. Mas o Sr. Silva, o homem comum, sempre soube que havia algo de errado com isso, apenas não tinha como pôr em palavras visto que seus próprios pensamentos são constantemente regrados pelas normas incutidas pelos mesmos "especialistas" em sua juventude.

    Sr. Silva, agora afogado num sentimento de tristeza profunda e fingindo que adere piamente às soluções propostas pela alta classe, passa a sentir um despertencimento do mundo. A conclusão a que chega é que a única e inevitável saída é a destruição, não das ideias que o trouxeram a tal estado, mas a de si mesmo e do mundo ao seu redor.

    Alguns dizem que Sr. Silva na verdade deveria ser Sra. Silva. Seria este o problema? Sr. Silva apenas nasceu no corpo errado?

    Outros, ainda, insistem que Sr. Silva não se livrou completamente das amarras de seu tradicionalismo enraizado, e sua paixão pela Sra. Araújo demonstra claramente esse fato. Sr. Silva desde a mais tenra juventude desejou casar-se com ela, constituir uma família e ter filhos para educar e formar nas virtudes. Ora, blasfêmia! Não impressiona que esteja afundado em tamanha miséria, é certamente uma punição de Afrodite. O matrimônio é a invenção de uma sociedade patriarcal e apenas oprime os indivíduos que não podem agora realizar-se na dimensão mais importante de suas vidas: a sexualidade desregrada.

    Há também os que transferem a culpa para a conta de uma transferência bancária, ou melhor, para a falta de uma. Ah! Se o Sr. Silva tivesse dinheiro o suficiente, ele não viveria triste! Ou melhor, se todos fossem tão miseráveis quanto ele, não haveria tristeza pois a miséria adora companhia. A solução é abolir todo o tipo de propriedade privada, mesmo aquela pertencente ao próprio Sr. Silva.

    Os sete pecados capitais tornam-se as sete condições de uma vida feliz.

    E, sem causar espanto, a irrealidade das abstrações se desmancha perante a concretude do desespero. A destruição concreta e absoluta, então, parece ser a única solução: o suicídio.

    Mas os senhores especialistas já pensaram nisso também, e não se incomodam e oferecer ao Sr. Silva "morte medicamente assistida", pois suicídio é uma palavra triste e chocante demais para ser adotada por eles.

    Sr. Silva, já numa fila pra receber as medicações que provocarão sua destruição é assegurado de que está no caminho correto. E esse é o fim de Sr. Silva, um homem comum.

    Talvez tudo o que era necessário para frear e reverter a situação toda fosse uma pessoa corajosa o suficiente para relembrar o Sr. Silva de que não fora ele quem enlouquecera, mas todo o resto da humanidade. Alguém que afirmasse em bom tom o valor intrínseco da vida humana e que o sofrimento é inerente a ela. Que lembrasse ao nosso homem comum que a felicidade não vem através da destruição de estruturas deixadas a nós por homens incríveis, talentosos artesãos, mas pela afirmação e conformação a elas. Algumas delas foram até mesmo planejadas desde toda a eternidade, por um Divino Artesão...

    Era necessário que alguém o lembrasse que

“Se encontramos em nós um desejo que nada neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fomos criados para outro mundo.” (C. S. Lewis)

P.X.,
Igor Gaviano 


domingo, 14 de agosto de 2022

A Verdade já foi morta (por Igor Gaviano)

     «O louco não é um homem que perdeu a razão. O louco é um homem que perdeu tudo exceto a razão.» (G. K. Chesterton)


    A loucura quando se torna norma social se vê obrigada pelos seus adeptos a se impor mesmo no menor dos vilarejos e ao mais comum e "irelevante" dos homens: o homem comum. Disse Ronald Reagan certa vez que «Toda grande mudança [na América] começa ao redor da mesa de jantar», e os lunáticos entendem bem essa verdade pois sabem que se convencerem as famílias a tornar a mesa de jantar num campo de batalha é nisso que se transformará a sociedade.

    Os lunáticos são chamados desse modo não porque vivem "no mundo da Lua", mas porque, desviando os olhos do Sol (cuja luz é muitas vezes difusa e enceguecedora), veem como mais agradável observar a bem definida e atraente Lua. Esquecem eles - voluntária ou involuntariamente - que a Lua, contudo, não tem luz própria mas deriva todo o seu brilho da luz solar.

    E assim é a loucura: não é negar a verdade, mas elevar uma verdade e utilizá-la como cavalo de batalha para obscurecer outras verdades mais fundamentais. Porém, do mesmo modo como o homem moderno é o único a ser "iluminado" pela luz da ciência, se colocando - ao seu ver - acima dos obscurantistas medievais, ele também é o único em seu tipo particular de loucura.

    Diz um provérbio chinês que «Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha para o dedo» e o homem moderno, chafurdado em sua própria idiotice, de fato é obcecado pelo dedo. Após destruir todas as estruturas fundamentais da sociedade, cria ele próprio novas estruturas amorfas (porque a forma será dada posteriormente, a seu bel prazer).

    "Amemos a verdade, amemos a ciência!", diz ele.

    "Questione tudo!", continua.

    "Seja tolerante!", por fim conclui.

    E seu ponto de vista se desmorona enquanto ele range os dentes e aperta os dedos em angústia diante do menor questionamento. A solução é impor seu contraditório ponto de vista e confiar nas autoridades que ele próprio criou, visto que a bolha que o protege pode ser estourada com o menor cutucão.

    Algo tão fundamental como o conhecimento do outro por meio de seu rosto descoberto é tido como acessório se não mesmo desnecessário. Brada o homem moderno de um lado de sua boca "Use a máscara! Salve vidas!", enquanto o outro vomita "Meu corpo, minhas regras! Isso que está dentro do ventre não é uma criança!". Ele se orgulha de crer que a moralidade é relativa, ao mesmo tempo em que se ira com a imoralidade daqueles que discordam de seus torpes ideais. Aboliu a religião entregue a eles pelos seus pais e criou ele mesmo a sua própria, com sistema sacramental, magistério e até mesmo sumos sacerdotes. 

    Em vez de separar os objetos abençoados para o culto divino, separa seu lixo em cestos de cores distintas, pois é assim que trará salvação ao mundo decaído. Eis que surge um problema na interpretação do mundo: "Não se preocupe", diz ele, "confiemos em nossos especialistas!". Caso nem eles sejam suficientes, há figuras como Anthony Fauci para emitir uma bula sobre o assunto e resolver de vez a disputa. Há até mesmo deuses e regime alimentar, pois os sagrados animais não devem ser consumidos e devemos todos nos tornar veganos. O fato de a palavra dever implicar uma prescrição moral (as quais o homem moderno aboliu) é uma simples pedra de tropeço e esse detalhe pode simplesmente ser ignorado.

    Contudo, não se esqueça: nenhuma religião carece de sacrifício e, nas palavras de Chesterton, «Onde quer que haja adoração de animais, ali haverá sacrifícios humanos.»

    Triunfante, o homem moderno decide realizar o assassinato supremo: o da própria Verdade. Para aquele que se vê permitido em acreditar na absurdidade do racionalmente contraditório, a Verdade é uma inimiga. Deus, na pessoa de Jesus Cristo, se coloca como «O Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14, 6) e o homem moderno, na pessoa de seu profeta Nietzche clama «Deus está morto!».

    E qual é a esperança em meio a esse caos? É que a Verdade já foi morta anteriormente. No entanto, Ela continua Viva, pois conhece o caminho para fora da cova.








quinta-feira, 15 de julho de 2021

[CONTO] "Está entregue" (por Igor Gaviano)

 ESTÁ ENTREGUE

Era tarde da noite, já fadigado do trabalho diário, resolvo dar um passeio. Poucos dias atrás, eu havia sido diagnosticado com uma doença degenerativa que afetaria minha visão, e já percebia que ela estava falhando. Não era ainda tão perceptível, mas ao olhar para meu relógio de pulso, mal conseguia enxergar os ponteiros que sumiam e se fundiam às cores do ambiente.

Ao passear pelas ruas desertas e pouco iluminadas, não consigo ouvir nem mesmo o ruído de uma mãe se queixando da sala bagunçada. Era quase meia-noite quando saí de casa, as crianças já foram dormir há muito tempo.

É na escuridão noturna que o brilho se realça de forma mais sublime assim que ele alcança a visão, e um brilho particular me cativou o olhar. Era um pequeno edifício de formato pouco usual e, de dentro dele, algo de diferente resplandecia. Naquele momento, tempo era o que não me faltava. Decidi entrar.

Ao passar pela porta, a escuto fechar atrás de minha cabeça. Confiro, está trancada. O medo me sobe à espinha, suor amargo corre sobre meus olhos, não havia mais volta. Lá dentro também não se escutava nada a não ser as fortes batidas de um coração arrependido por ter dado o primeiro passo adiante. Decido então tentar encontrar outra saída, e é claro que isso significava ter que explorar aquele edifício para além do breve e apertado saguão.

Uma porta à minha frente estava aberta, não tardo em atravessá-la. Quando o faço, percebo algo de macabro mas ao mesmo tempo fantástico «seria esse lugar em que me encontrava o mesmo no qual entrei?», me perguntava. O motivo era que aquela sala, também soturna e misteriosa, deveria se estender por pelo menos 300 metros adiante, algo aparentemente impossível dado o tamanho do pequeno edifício. Digo “pelo menos” porque era até onde a vista alcançava, depois disso, escuridão.

De todo modo, não havia o que fazer, além de caminhar. Foram mais de 30 minutos de caminhada e a percepção inicial de que 300 metros deveria ser a extensão daquele cômodo começou a parecer uma ingênua ilusão. As luzes se acendiam uma a uma a cada 100 metros percorridos, a jornada parecia apenas começar.

Começo a sentir um enorme peso sobre meus ombros, quase como se estivesse em outro planeta em que a gravidade exerceria uma força sobre mim de 10 a 20 vezes maior. Não era uma sensação agradável.

E conforme o peso ia se aumentando, concomitantemente as luzes se enfraqueciam. Começa a chover do lado de fora, ao menos pelo que os meus sentidos fazem parecer. O cheiro do ambiente aos poucos se torna de sangue fresco, e meu coração me pede para parar e descansar. Contudo, ao que parecia, uma parada ia significar morte, visto que não tinha certeza se conseguiria levantar por conta do enorme peso que me era infligido.

As trovoadas se tornam mais fortes e, mesmo que não houvesse janelas, de algum modo começo a sentir a gélida ventania sobre a pele nua de meu rosto. O peso era forte demais, não conseguia mais caminhar. Ali mesmo, fico de pé, mas imóvel e apavorado.

Então, para o meu alívio, luzes à minha frente se acendem. Consigo ver uma grande cortina vermelha, semelhante àquelas presentes em teatros antigos. Por detrás dela, era visível a sombra de uma grande árvore, cujos ramos retorcidos se estendiam por todo o comprimento da cortina. As luzes novamente se apagam, o peso aumenta repentinamente e sou levado a cair.

«Seria este o meu fim?», pensava. Quando estava quase sem esperanças, um forte trovão atinge a cortina logo à minha frente, a qual é rasgada de cima a baixo e começa a ser consumida pelo fogo, algo que eu não conseguia compreender, dado que o cômodo era completamente fechado. Escuto um alto e retumbante brado que penetra o mais profundo de minha alma. A cortina é consumida agora por completo pelo fogo, assim como a árvore, e o peso simplesmente desaparece. Era um breu completo.

Me levanto e fico parado onde estou, esperando e pensando no que havia acabado de acontecer, «Certamente devo estar sonhando >>, insistia comigo mesmo. Do completo silêncio começo a escutar sons familiares, como os cascos de vários cavalos. As luzes atrás de mim se acendem ao longe, e consigo observar uma grande multidão marchando em minha direção, conduzida por uma bela carruagem carregada por, contava eu, cerca de doze cavalos. Eu encosto na parede à minha direita pois não quero atrapalhar aquilo que está acontecendo, parece algo além da minha compreensão.

Olhando novamente para o lugar onde se encontrava a árvore, percebo que nada mais é que um grande salão de jantar, em cujo centro há um belo e suntuoso trono. Ignorando a minha presença, a carruagem e seus grandes cavalos param e lentamente os convidados que vinham atrás se assentavam nos bancos da mesa em formato de “U”. Sentavam-se dezenas, centenas, milhares... Não conseguia mais contar. Assim que todos se assentaram, os cavalos sozinhos se desataram da carruagem e se organizaram, quase como se fossem inteligentes, seis em cada um dos lados do trono.

Da carruagem desce uma bela mulher, com certeza era a rainha. Não pude me conter e tive de fazer uma profunda reverência, prostrando-me no chão. O gesto foi prontamente notado por ela, que vinha claramente na minha direção, carregando uma caixa toda de ouro e bastante ornamentada. «Todos esses serventes me ignoraram e logo a rainha veio me cumprimentar? Apenas ela notou minha presença?», eu me indagava. Ela para diante de mim e, com seu olhar tão profundo quanto sua alma, faz um gesto para que me levante, sem dizer uma palavra. Ela então aponta para a carruagem, e prontamente três dos servos que estavam sentados vão em direção a ela.

Da porta da carruagem sai o Rei, em toda a sua pompa. Ele era um homem forte e novo, utilizava uma grande capa e cetro além de muitos outros ornamentos, com exceção notável de um: a coroa. Os serventes ajudam o Rei a caminhar com suas esplendorosas vestes. Ao passar do meu lado, ele me concede um piedoso e caridoso olhar, como se me conhecesse há muito tempo, e também sou naturalmente levado a me prostrar diante dele.

Os serventes o conduzem até o trono, sobre o qual se assenta. A Rainha, agora ao lado direito do trono, abre a caixa. Lá estava a coroa do Rei! Peça tão bela e reluzente que um sentimento esmagador de transcendência se apossou do meu espírito, o qual foi movido a uma certa piedosa reverência. Um dos serventes, colocando grossas, belas e ornamentadas luvas, como se não pudesse tocar naquela coroa com as mãos nuas, a toma e coloca-a na cabeça do Rei, o qual se levanta em toda a sua glória, quase como que para que todos os presentes o reverenciassem. E foi o que aconteceu.

Num súbito, todos os presentes, com exceção do Rei, se colocam de joelhos. Cada um deles, então, se levanta e vai até ele, aonde se colocam de joelhos novamente, para que ele confira uma bênção. Depois de todos estarem abençoados, o Rei caminha para mais à frente do seu trono e pede um inaudível favor àqueles três servos que o acompanhavam mais de perto. Em pouco tempo, ali começava um banquete.

O trono é removido e o Rei se assenta ao fundo da mesa, aonde todos possam vê-lo. À frente dele, há pão e vinho. Proferida uma solene bênção sobre os alimentos, o próprio Rei os reparte e passa para que os presentes possam desfrutar daqueles dons. Eu, me sentindo indigno e distante daquela realidade, não ouso me aproximar e mantenho-me naquele lugar em que estava. À direita do Rei estava a Rainha, que parecia ter mais idade do que ele, apesar de ter uma beleza feminina inigualável, chamando a atenção de todos os presentes.

Quando o último pedaço de pão ia ser partido, o qual seria destinado ao Rei e à Rainha, todos os presentes param de falar e dirigem seus olhares para o Rei, como que na expectativa de que ele faça algo. O Rei, então, toma aquele pedaço de pão, o parte em três pedaços, deixa um com a rainha e caminha na minha direção, com um daqueles três servos. Um medo se apossa da minha alma e caio por terra quando ele chega próximo de mim.

O brilho de sua coroa quase me cegava, mas foi se tornando mais confortável a cada passo que ele dava em minha direção. Eu, ainda caído, olho para o Rei, agora em minha frente. Ele estende a própria mão para me levantar, e eu o faço. «Meu filho, de que tens medo?», disse o Rei. «Senhor, eu não sou digno de que venhas até mim, mas dizei uma palavra que farei como queres», respondi. Ele então olha para o seu servo, que tira a capa do Rei e a coloca em mim. O Rei apenas olha para mim com aquele calmo olhar com que me fitara mais cedo e, partindo o pão, me entrega.

Ele dá um sinal e todos começam a comer, sendo que agora ele pediu aos servos que armassem uma mesa apenas para nós, e comeu diretamente comigo. Eu não entendia o que estava se passando, e o gesto do Rei me emudeceu até o último osso. Não conseguia nem dizer “obrigado”, por pensar que não seria o suficiente para expressar a gratidão que sentia naquele momento.

O Rei também não falava nada, e não precisava. Isso porque era, de algum modo, perfeitamente compreensível e incompreensível aquele gesto feito. Ele pediu a sua taça de vinho e dela também bebi. Ao dar o último gole da taça, ele olhou pra mim e com um sorriso e disse-me «Ide, está entregue!». Antes que eu pudesse perguntar o significado daquelas palavras, subitamente todas as luzes se apagaram e eu perdi a consciência.

Acordei no chão, logo em frente àquele pequeno edifício. Três pessoas estavam em minha volta. «O que aconteceu?», perguntei. O senhorzinho que sempre passeava por essas bandas me respondeu «Você estava caminhando, meu filho, e de repente te vir cair logo aqui na calçada». Então me levantei, disse a eles que podiam voltar para casa que estava bem, mas ao menos aquele senhor insistiu em me acompanhar de volta.

O edifício ainda estava ali na minha frente. Assim que os outros se dispersaram, perguntei ao senhor do que se tratava aquela construção diferente. «Estão construindo uma Capela aqui neste local. Só espero que os malditos sinos que pensam em colocar não perturbem o meu precioso silêncio...», ele respondeu. Não disse uma palavra até chegar em casa. Me despedi do senhor, e entrei, ainda me perguntando o significado de tudo o que havia acontecido. Certamente deveria ser alguma alucinação decorrente do desmaio.

Já era muito tarde «Fiquei desacordado por muito tempo», pensei, e me perguntei «Que horas são?». Ao olhar para o relógio de pulso e descobrir que era meia-noite e meia, coloquei um sorriso no rosto e repeti comigo mesmo «Está entregue ».

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O malvado homem laranja que é malvado e laranja (por Igor Gaviano)

    De acordo com fontes confiáveis (minha experiência nos últimos 20 minutos), 9 a cada 10 posts em redes sociais são de pessoas ou indignadas pela vitória do candidato à presidência Joe Biden ou felizes pelo ocorrido.

    Deixando de lado o fato de que, oficialmente falando, Joe Biden ainda não foi eleito como presidente dos Estados Unidos, algumas coisas chamam a atenção enquanto lemos essas discussões e perdemos nosso tempo com xingamentos e frivolidades na internet.

Mas como não sou conhecido como alguém que consiga resistir a uma boa polêmica, por que não colocar mais lenha na fogueira e falar um pouco sobre o vovô Joe e o malvado homem laranja?

FIRST THINGS FIRST

    Antes de tudo, vamos tirar do meio do caminho os red herrings e partir para o que interessa de fato (apesar de gastar tempo com coisas inúteis, nem mesmo eu tenho o suficiente para gastar respondendo a afirmações toscas!)

    A Deputada Federal Chris Tonietto (por quem tenho grande admiração) recentemente fez a seguinte postagem em seu Facebook:


    Dentre os comentários mais relevantes, saltam aos olhos dois deles. No primeiro, alguém deseja colocar como ilegítimo e caracterizar como "pitaco" todo e qualquer comentário acerca das eleições americanas:


    O fato é o seguinte: queira ou não queira, goste ou não goste, os Estados Unidos são a segunda maior economia e o país com a maior força militar global. O Vale do Silício, ademais, é um polo de tecnologia tão grande e universal que qualquer flutuação no capital gerado por ele impacta qualquer pessoa em todos os quatro cantos da Terra. Então sim, a eleição americana importa e nós não apenas daremos pitaco como devemos dar.

    Além disso, digamos, apenas pelo argumento, que essa boa senhora estivesse certa. A política das outras Nações não nos impacta de maneira alguma (quanta ingenuidade! Mas vá lá), e não devemos meter o nariz aonde não somos chamados. Justo. Todavia, o máximo que isso prova é que não teríamos motivos próprios ou egoístas para nos importar com o que se passa em outros lugares do mundo, e é evidente que esse não é o único motivo pelo qual podemos nos importar e lamentar profundamente algum acontecimento.

    Veja o seguinte cenário (e não chore! Não estou dizendo que é uma analogia exata ou nada assim, apenas entenda o que estou tentando ilustrar): suponha que um político que é a favor da tortura e extermínio de certa etnia é eleito líder de algum lugar do mundo bem remoto, e que provavelmente provocará impacto nulo ou próximo disso em nosso dia-a-dia, seja o que for que aconteça com os assuntos internos do país.

    Pergunta: lamentar o ocorrido seria uma instância de dar "pitaco" em eleições alheias, ou seria algo ilegítimo porque não te impacta diretamente?

     Não precisa responder, já que a resposta é um claro e forte NÃO.

    Na verdade, isso é um evidente sinal de virtude, visto que, mesmo que o ocorrido não impacte o mínimo em sua vida cotidiana, sua consciência alerta e cria empatia pelas pessoas que serão afetadas pelo regime genocida, seja ele onde for. Analogamente, é justo e mesmo virtuoso se compadecer de uma nação que, na sua opinião, sofrerá por conta da eleição de um novo representante como, a meu ver, ocorrerá com os Estados Unidos sob (potencialmente) Joe Biden.

    O que nos leva ao segundo comentário da noite (pegue sua pipoca!):


    Você pode pensar que esse comentário foi irônico tendo em vista a publicação, contudo, olhando as respostas a ele, é evidente que na verdade ela está sendo completamente direta e sincera, o que é altamente preocupante. 
    
    Não é preocupante pelo fato de apoiar o candidato X ou Y, sobre isso podemos ter uma boa discussão, mas porque precisamente concede ao ponto da deputada e mesmo assim vê coisas abjetas como dignas de reconhecimento e aplauso.
    
    Chegamos ao ponto de, quando falamos de aborto sem limite, ao invés de traçar distinções e falar do tema com alguma delicadeza (o que era feito até mesmo pelos abortistas há alguns anos), a pessoa cede completamente ao argumento e chama de sensatez um claro ato de loucura.
    
    Isso sem entrar no mérito de "crianças transgênero" (o que, por mais triste que possa ser, está longe de ser invenção de uma direita conspiracionista), que por si só é uma grande loucura. Os pais que promovem esse tipo de decisão dos seus filhos - os quais não têm o cérebro desenvolvido o suficiente para escolher as próprias roupas, quem dirá tomar uma decisão definitiva como essa - devem ser punidos e o conselho tutelar deve ser prontamente alertado. E não, isso não deveria ser objeto de séria controvérsia.

    Essa longa discussão nos leva a duas conclusões:
        
I. Podemos e devemos discutir sobre a política de outros países, mesmo que (se hipoteticamente fosse o caso) elas não nos impactem pessoalmente em nada;
II. Qualquer discussão racional pressupõe o mínimo de terreno comum, e não é chamando loucura de sanidade que se consegue isso.

    Tiradas essas conclusões, finalmente podemos falar do...

MEAN BAD ORANGE MAN WHO'S BAD AND ORANGE

    Se há uma coisa que os comentários acima mencionados ilustram é o suicídio do pensamento a que nossa sociedade está submetida.

    Olhando a campanha do Partido Democrata desde o começo do ano até o presente momento, percebe-se que o tom em que falam não difere muito daquele dos nossos queridos comentaristas. O argumento inteiro do Partido se resume, nas palavras de Ben Shapiro, ao fato de que Donald Trump é um "malvado homem laranja que é malvado e laranja" e, independentemente de quem estiver concorrendo contra ele, é contra um fascista que está concorrendo, e o fascismo deve ser combatido a todo custo!

    Que isso é muito perigoso dispensa comentários. A começar pela alegação de que Donald Trump é um fascista, nazista, o que queira. O que exatamente isso significa? Que ele intencional e deliberadamente matou ou contribuiu para a morte milhões de pessoas, promoveu censura dos veículos de mídia ou um fechamento absoluto do país? 

    Se significar isso, é muito difícil sustentar o argumento de que Donald Trump é um fascista. E é nesse momento em que as pessoas passam a apontar seus famosos e inconvenientes Tweets.

    Sim, Donald Trump não é flor que se cheire, estou disposto a conceder até ai. Ele não é o exemplo de ideal cristão e o seu rosto não estará no vitral de catedrais, medalhas ou ícones depois que ele falecer. Ele não será canonizado pela Igreja Católica e não será lembrado como um exemplo a ser seguido por quem quer que seja. Mas, mesmo assim, isso não significa que ele seja um racista, fascista, nazista, etc. Os seus Tweets são às vezes inconvenientes e equivocados, mas chamá-lo dessas coisas sem evidências concretas e diretas apenas leva a um resultado: ao esvaziamento e perda de significado de palavras que deveriam ser usadas para descrever situações gravíssimas e específicas, e que são usadas como vírgulas e interjeições.

    Na verdade, na política em si é difícil encontrar qualquer exemplo de flor que se cheire, sobretudo quando se fala de políticos muito poderosos como os que eventualmente concorrem a altos cargos no governo, e Joe Biden não é exceção. Além da já antiga e conhecida situação Ucraniana em que supostamente estaria envolvido junto à sua família, basta olhar para o tipo de atitude que ele tem perante a vida. Seria honesto e sincero um homem que, depois de ter sua esposa tirada de si por um acidente de trânsito em que aparentemente não houve culpado, sugere que o motorista que bateu no carro estava bêbado, apenas para propósitos políticos?
    
    E que tal a afirmação contínua e persistente de que Donald Trump é responsável por toda e cada uma das mortes causadas por um vírus do qual tínhamos nenhum ou pouquíssimo conhecimento a respeito? Será que é justo acusar o presidente do país disso, sendo que os EUA são uma federação e dentre os estados mais afetados estão muitos controlados por democratas?

    Ou mesmo a afirmação de que Trump não condenou os Supremacistas Brancos, como a KKK, sendo que ele o fez repetidas vezes? Será que é esse o exemplo de pessoa que queremos colocar num pedestal?

    De novo, meu ponto não é defender o Trump e todo absurdo que ele eventualmente fale, mas apenas apontar que falhas de caráter temos nós todos, e os políticos especialmente não são bem conhecidos por serem pessoas de caráter inabalável (incluindo o vovô Joe).

    Mas se o argumento de que Trump é um homem malvado e laranja não cola, de modo que defender o que ele defende não necessariamente é uma depravação moral, será que devemos lamentar ou exaltar a sua (novamente suposta) derrota?

C'MON MAN!

       Se eu tirasse meu "chapéu de conservador" e colocasse meu "chapéu de cidadão americano comum", eu consigo ver vários aspectos nos quais o Presidente Trump cumpriu um excepcional mandato.

    Até que começasse a pandemia da COVID-19, na verdade, o índice de desemprego nos Estados Unidos se encontrava numa baixa histórica, e a economia deslanchou tanto nos últimos 4 anos que 56% dos americanos se dizem melhor agora do que quando o mandato de Trump começou.

    Ora, isso é algo a se pensar a respeito!
    
     Além disso, recentemente o governo e sua política externa promoveu um acordo que gerará paz não vista no Oriente Médio em décadas. Para um fascista até que ele sabe promover a paz afinal!

    Mas não posso deixar de falar dos assuntos que mais me impactam. Coloquemos novamente meu "chapéu de conservador".

    Apesar de ser "católico", de catolicismo em suas visões sociais não há nada, e não é a toa que lhe foi negada a comunhão em uma Santa Missa à qual compareceu. Como já citado, ele apoia não apenas a legalização do aborto, mas o seu financiamento direto pelo Estado. Ele apoia não apenas o financiamento público de contraceptivos, mas que seja obrigatório que até mesmo organizações religiosas e contrárias à prática contribuam para isso. Ele apoia diretamente a ideologia de gênero e políticas associadas a ela...

    Infelizmente, exemplos assim podem ser multiplicados ad nauseam, o que, para qualquer conservador, deve ser suficiente para lamentar uma eventual eleição de Joe Biden. E não para por aí, pois há um último ponto...

THE SLEEPY JOE

    Se eleito, Joe Biden será o presidente eleito mais velho da história dos Estados Unidos, e claramente sofre de acentuado declínio mental (com gafes que também podem ser facilmente multiplicadas). 
    
    O real problema disso, contudo, é que ele não estará capacitado para tomar as decisões da maior economia do mundo. Isso apenas contribuirá para que sua vice-presidente (que foi classificada como a membro mais liberal do senado) tome grande parte do poder que na verdade seria devido ao presidente.

    Se isso é lamentável na mente de um conservador? A resposta deve ser evidente a esta altura do campeonato...

OK. SO...

    O leitor atento até agora pode me acusar de estar tendo um meltdown perante uma possível vitória de Joe Biden, sendo que não será tão grande coisa assim. E ele teria razão, em parte.

    A vitória de Biden não tem tanta significância quanto poderia ter porque, ao contrário do que foi garantido a todos pelas estatísticas, os republicanos provavelmente controlarão maioria no Senado. Isso potencialmente impede a confirmações de juízes ligados aos democratas para a Suprema Corte (ao contrário do que aconteceu no caso da estupenda Amy Conney Barret), o que trabalhará a favor da causa conservadora e pode contribuir para que decisões importantes estejam a caminho.

    Contudo, é evidente que seria possível reivindicar essas causas com muito mais vigor caso os republicanos controlassem ambas as instâncias de poder e, para mim, esse é o real motivo de pesar.

P.X. 
Igor Gaviano







    

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