Pesquisar este blog

sábado, 29 de agosto de 2020

O GRANDE PROBLEMA DA IGREJA OCIDENTAL (por Igor Gaviano)

católico jujuba (adj.) católicos mornos, que não se importam muito com a tradição da Igreja e às vezes a ridicularizam em prol de querer tornar a Igreja mais "moderna" ou "tolerante".

católico rad-trad (adj.)
católicos que racionalizam seus escrúpulos a ponto de colocarem a tradição da Igreja contra ela mesma. Tomam alguns problemas pertinentes no presente e os usam para invalidar tudo aquilo que consideram "modernista" ou "progressista".

Penso que, basta lidar com grupos católicos por nada mais que 30 minutos para distinguir quais indivíduos se encaixam em cada uma dessas duas categorias. Para deixar bem claro, as duas tomam problemas pertinentes, e as duas...

EXTRAPOLAM ELES PARA ALÉM DE SUAS CONSEQUÊNCIAS NATURAIS


A primeira delas toma o reto problema de que a Igreja não deve ser fechada em si mesma, mas deve pegar todos os tesouros de sua tão rica tradição, que construiu a civilização ocidental, e levá-los ao mundo. A missão principal da Igreja é evangelizar e, por mais errados que esses católicos mornos possam estar, sobre isso eles estão corretos. A heresia está no fato de que eles tomam gato por lebre e passam a inserir na Igreja uma mentalidade relativista.

Agora, a segunda delas toma o problema oposto. Observa todos os abusos litúrgicos, diluição de doutrina e complacência com o pecado trazidos pelos católicos jujubas e rejeita tudo aquilo que acredita ter sido consequência direta do maior mal do século XX (de acordo com eles), a saber, o Concílio Vaticano II. Que a posição é igualmente herética dispensa comentários.

Contudo, penso que católicos muito sensíveis em outras ocasiões observam esses dois grupos e, por medo de se encaixarem em qualquer um deles, acabam rejeitando justamente os aspectos positivos que eles trazem, tratando como se os problemas para os quais apontassem fossem ilusórios e invenções de suas mentes conspiracionistas. Não sejamos tolos...

NÃO HÁ NADA QUE SURJA DE UM VÁCUO


O problema que eu quero apontar neste post é justamente a alergia que alguns católicos (muito sensíveis, diga-se de passagem) têm a algumas palavras, tais quais: latim, batina e tridentina.

Para deixar bem claro, é um fato que as práticas litúrgicas se desenvolvem. A liturgia da Igreja não permanece a mesma mas, de acordo com as circunstâncias de tempo, local e cultura, mantendo uma essência comum ao longo dos séculos, se adapta aos fiéis que as frequentam.

Em meio a uma série de revoluções iniciadas por Martinho Lutero, por exemplo, a Igreja achou pertinente salvaguardar alguns aspectos essenciais da liturgia que estavam sendo descartados pelos ditos reformadores. Uma ênfase ainda maior foi posta sobre o sacerdócio católico, sobre a Santíssima Eucaristia e sobre a beleza e universalidade da liturgia.

Nos tempos modernos, percebeu-se que essa abordagem não fosse talvez a mais produtiva para disseminar os tesouros da tradição pelo mundo, e uma outra reforma litúrgica foi iniciada pelo Papa São Paulo VI.

Não deve haver dúvida que muitas falhas em sua implementação ocorreram, e não é herético ou dissidente admitir isso. Afinal, a Igreja passa por diversas crises e, por meio delas e a exemplo de seu Fundador, ressuscita e continua espalhando sua luz pelas eras. Todavia, com medo de ser categorizados como rad-trads, esses católicos outrora muito sensíveis muitas vezes...

DESCARTAM INJUSTAMENTE OS TESOUROS DE NOSSA TRADIÇÃO


Para entender meu ponto, basta observar a liturgia oriental. Ela permaneceu praticamente inalterada em sua essência e manteve muitos aspectos que os católicos ocidentais tendem a ver como "farisaicos" ou desnecessários hoje, tais como a beleza dos paramentos, a rigidez no cumprimento das rubricas e a comunhão exclusivamente na boca.

Assim, mesmo que não devamos nos apressar em julgar padres que não tenham uma grande afinidade pelo modo tradicional, visto que não nos encontramos em nosso lugar de dever para fazer isso (apesar que uma correção fraterna sempre é válida), igualmente, se queremos ser bons católicos, devemos SIM ter uma paixão pela língua tradicional da Igreja (como o documento Sacrosanctum concilium aponta em seu ponto 36, parágrafo primeiro), pela beleza e rigidez da liturgia e devemos preferir a comunhão na boca. Eu diria que não devemos, jamais, ter aversão pela Santa Missa na forma tradicional também.

Isso também significa que nunca devemos nivelar por baixo nossas práticas e, se couber a nós, devemos preferir por atitudes mais tradicionais e que se conformem à tradição contínua da Igreja (inclusive pós-conciliar, como idealizada pelos líderes do Vaticano II).

A Igreja Católica tem 2000 anos, não 60, e cabe a todos os lados entenderem isso.

Pax Christi


sábado, 22 de agosto de 2020

AS 12 SEMANAS E O ESPANTALHO (por Igor Gaviano)

Nesses tempos não é nada raro encontrar acadêmicos sérios e respeitados que defendam que a terminação tardia da gravidez deva ser aceita, legalizada e normalizada universalmente. Alguns países parecem estar, igualmente, seguindo essa tendência.

Que há pessoas que comemoram o fato como um avanço no "empoderamento feminino" e na mentalidade geral da população é algo que, por mais comum que seja, continua sendo chocante. Felizmente, o brasileiro médio ainda não chegou bem lá, apesar que penso que não esteja trilhando um caminho que vá evitar essa conclusão.

Pensando e discutindo sobre isso, tive a ideia de inserir uma "parte II" à nossa coletânea de falácias lógicas, visto que um bom número delas é utilizado em discussões de internet e, para aqueles talvez não familiarizados com elas, têm um grande peso e podem cegar as pessoas para os argumentos sendo oferecidos.

DISCLAIMERS E TERRENO COMUM

Recentemente, eu recebi o seguinte comentário em uma rede social:

Para entender o que há de errado a priori com ele, preciso que demos alguns passos para trás e falemos de algumas coisas mais fundamentais (só pra esclarecer, foi um comentário sobre o compartilhamento dessa notícia).

A primeira delas é a seguinte: o resto do argumento vai tomar por pressuposto que a moralidade é objetiva, já que uma discussão desse tema merece um post próprio e, como eu já argumentei em outro lugar, nem faria sentido discutir questões éticas se a moralidade fosse relativa. Pense bem: se a moralidade não tem nada de objetivo para se discutir a respeito, qualquer discordância nesse sentido (em qualquer grau) é mera subjetividade. Se eu achar, por exemplo, que torturar crianças por diversão é uma coisa boa dada a premissa que a moralidade é subjetiva eu não posso estar certo ou errado, mas apenas penso de maneira diferente.

Felizmente, a maioria das pessoas, mesmo que inconscientemente, concorda com isso. As mesmas pessoas que dizem que a moralidade é subjetiva e relativa a tempo, lugar e cultura são as que acham que, por exemplo, a abolição da escravidão, a concessão de direitos iguais e a defesa de minorias fazem com que a moralidade moderna seja superior àquela que a antecedeu. Ora, mas se a moralidade é subjetiva, como podemos falar em progresso ao invés de mera mudança?

Assim, passamos pro segundo ponto em que, ao menos ao meu ver, não deveria haver discordância séria, a saber, dentro das coisas que são objetivamente erradas encontra-se a ação de direta e intencionalmente tirar uma vida humana inocente. Isso é crucial porque, concordando no caráter fundamental do direito à vida e que ele deve ter amparo legal, a discussão sobre o tema do aborto se afasta de "red herrings" e passa a girar em torno do tema central de se o feto é ou não uma vida que deva ser preservada.

Estabelecido o terreno comum, podemos passar para o próximo tópico, que é...

NÃO BATA NO ESPANTALHO!

Dentro do campo das falácias lógicas, uma das que mais comumente passa desapercebida é a Falácia do Espantalho. Para explicar, pensemos num exemplo:

(Falante A): "A moralidade é objetiva, e penso que precisamos de Deus para explicá-la"

(Falante B): "Me desculpe, mas se você faz algo só com medo de queimar eternamente no quinto dos infernos, isso não é boa conduta..."

Evidentemente, o que há de errado com o Falante B é que ele mal entendeu o que o Falante A estava argumentando, mas pressupôs que sim e atacou uma versão mais fraca do argumento do seu oponente porque é mais fácil que refutar o argumento original.

E que isso é uma falácia deve ser óbvio pelo simples fato de que, refutando uma versão mais fraca do argumento do seu oponente, você não derrotou o argumento dele!

Então, quando nosso comentarista diz: "Se sua religião impõe regras, cumpra-as, mas não as imponha a toda uma sociedade composta por pessoas de diferentes religiões ou sem uma." ele nada mais faz do que comete uma Falácia do Espantalho, já que em momento algum se apelou para Livros Sagrados, Concílios, Autoridades Religiosas ou nada do tipo para fundamentar o argumento.

Isso fica ainda mais claro quando considera-se o terreno comum que já estabelecemos. Uma vez que concordamos que, tratando-se de uma vida inocente, não há motivo que direta e intencionalmente justifique sua retirada, é evidente que não se trata de uma questão religiosa stricto sensu (claro que eu argumentaria que, no fim do dia, Deus é necessário para explicar as crenças morais, mas isso também daria um post próprio), ao menos no sentido em que não é necessário fazer referência à religião.

Na verdade, dependendo da resposta de se o feto é ou não uma vida humana e do terreno comum compartilhado, é possível que se convença alguém da imoralidade do aborto sem nem mesmo tocar no assunto de se qualquer religião específica apoia ou não o ato, tendo inclusive as implicações legais acarretadas por esse ponto de vista.

A LAVAGEM CEREBRAL

Como já comentei em outro post, comentários ad hominem dispensam qualquer tratamento sério para aqueles que queiram ter uma discussão civilizada. Porém, eu percebi outro fato curioso na afirmação do nosso comentarista de que os religiosos teriam sofrido uma "lavagem cerebral" e que é por isso que eles discordam do ápice da racionalidade que é o posicionamento dele.

Deixando de lado as considerações que fiz sobre se a questão da legalização do aborto é ou não uma questão fundamentalmente religiosa, digamos que ele estivesse certo. Na verdade, digamos que a caricatura de que religiosos são pessoas anti-ciência, que não pensam, que são ignorantes e não têm argumentos fosse toda ela verdade, por mais absurda que seja.

Mesmo assim, se fizéssemos a pressuposição de que, por causa disso, essas pessoas estariam enganadas, cometeríamos outra falácia, a Falácia Genética!

MAS O QUE TEM A CIÊNCIA?

Outra consideração interessante feita pelo nosso interlocutor foi a batida referência de uma suposta dicotomia entre ciência e religião, da qual eu não tenho a pretensão de comentar sobre neste post (falo um pouco sobre isso aqui). Felizmente, nesse contexto, nem seria necessário e o motivo, por mais mal compreendido que seja, no fim das contas é muito simples: a ciência não é auto interpretativa.

Existem certas coisas que, pela sua própria natureza não podem ser investigadas utilizando-se o método científico, por mais útil que ele seja.

Poderia citar muitos exemplos, mas penso que o mais interessante deles seria o próprio método científico! Pare para pensar, se a ciência tentasse se "auto demonstrar", isso cairia num círculo argumentativo e seria, novamente, falacioso.

O exemplo que é pertinente neste post é o da ética. A ética não pode ser descoberta analisando-se a estrutura atômica de um fluido ou observando-se pela lente de um telescópio. Assim, qualquer informação que a ciência possa fornecer para ajudar a esclarecer a questão, ela nunca vai pôr nela um ponto final, já que, quaisquer que sejam essas informações, será o crivo da metafísica que, no fim das contas, vai fazer o julgamento acerca da racionalidade de cada um dos lados.

Assim reivindicar a ciência para um lado ou outro, tratando o seu oponente como "anti-científico" ou estúpido é nada mais que uma confusão de termos e, se me permite dizer, um pouco de desprezo pela pessoa com quem se argumenta.

ENFIM...

No fim das contas, eu mal toquei no mérito da moralidade da prática do aborto dentro do período das 12 semanas, mas esse não era o intuito do post, e não era necessário para atingir seu propósito. Penso que, acima de tudo, uma discussão falaciosa é uma discussão improdutiva, e se não se separar o joio do trigo, há o grande risco de perda de tempo e até mesmo de amizades no processo!

Isso não foi um ataque pessoal a ninguém e espero que tenha contribuído para aumentar o nível do diálogo nas redes sociais de vocês.

Pax Christi

terça-feira, 18 de agosto de 2020

A ILUSÃO DAS CAUSAS INTERMEDIÁRIAS (por Igor Gaviano)

Os aborígenes da Austrália são um povo interessante. Eles se encontraram separados da humanidade civilizada por boa parte de sua existência, e ainda assim são reconhecidamente tão humanos quanto qualquer ser humano que você possa encontrar lavando suas meias com as últimas bugigangas inventadas ou brigando com sua esposa numa manhã de domingo.

Mas isso não vem tanto ao caso. O fato a que quero chamar a atenção do leitor astuto é que há algo que identificamos nesses povos que os tornam tão humanos quanto nós, e penso que é muito óbvio do que se trata. Podemos ficar aqui horas e horas tentando discutir o que faz de alguém um alguém e não um algo, mas dificilmente discordaremos de um aspecto fundamental. Se algo busca explicações, esse algo na verdade é um alguém.
Desde nossos antepassados mais primitivos e até o ponto em que temos acesso à história redigida dos seres humanos, esse fato é o que permanece imutável. É claro que, quando eles percebiam a regularidade do mundo, a conclusão mais natural que tiravam disso é que uma inteligência maior que a deles próprios era a causa, a explicação dessa ordem. Os primeiros filósofos foram aqueles homens das cavernas, que olharam para as estrelas e notaram o curioso fato de que elas sempre apresentavam padrões de regularidade. Diante disso se perguntaram: por quê?
Os gregos foram os primeiros a entenderem que, quaisquer fossem as explicações naturais para aqueles fenômenos, a sua estrutura deveria ser entendida de antemão. Eles notaram, por exemplo, que quaisquer fosse o objeto observado na natureza, ele deveria ser um composto de forma e matéria, visto que conseguimos abstrair universais de objetos particulares. Além disso, observaram o fato curioso de que ocorre mudança, e daí tiraram que isso se dá por uma distinção entre potencialidade e atualidade.
Mais astutos que seus sucessores contemporâneos, os gregos perceberam as implicações de suas conclusões. Aristóteles nota que tudo que se move é movido por algo, e esse algo confere poder causal àquilo que é movido. Ora, sem poder, não há causa alguma, então deve haver uma fonte desse poder causal que é transmitido através da série. É o dito Motor Imóvel.
Quando a ciência natural se divorciou definitivamente da filosofia, na divisão de bens aquilo que se chamava de metafísica acabou sendo deixada para a parte dita mais fraca da relação. “Qual a necessidade dessa futilidade obscurantista?”, poderia pensar uma personificação da ciência não muito longe da realidade. Bem, a necessidade em verdade é muito grande, por pelo menos dois motivos.
Primeiro porque a caracterização da metafísica como uma espécie de mágica não só é equivocada como se distancia em grau elevado do que corresponde à realidade do assunto. Na verdade, a metafísica é o que justifica grande parte do que se realiza em nome da ciência, como a maioria dos filósofos percebeu durante a história da humanidade. Conceitos como forma, essência, mudança e causalidade são coisas pressupostas pela ciência, de modo que mesmo em princípio ela não as pode justificar.
E isso nos leva ao segundo e mais pernicioso motivo pelo qual a metafísica é absolutamente indispensável: quando eliminamos uma, apenas a substituímos por outra, e se o fizermos arbitrariamente (como ocorreu na revolução científica), acabamos por negar aspectos fundamentais que nos conectam com a realidade objetiva das coisas (minando a possibilidade de realização da própria ciência em nome de que eliminamos os aspectos metafísicos da realidade). Podemos chamar a metafísica materialista de A-metafísica, mesmo que continue sendo metafísica.
O que quero dizer com isso? Descartes, Galileu e companhia não desenvolveram uma metafísica para justificar o método que aplicavam, ou se o fizeram, criaram mais problemas que os que se propuseram a solucionar. Seus sucessores acabaram tomando o método por metafísica, o que gerou um declínio progressivo de todas as áreas do conhecimento que fossem desvinculadas das ciências naturais.
Assim, explicando as causas intermediárias dos eventos que ocorrem, os novos materialistas operam por meio da ilusão que chegaram à realidade última das coisas, quando na verdade nem começaram a arranhar a superfície. É essa ilusão que faz parecer que conceitos como o Deus do Teísmo Clássico são explicações no máximo pseudocientíficas que foram postuladas para solucionar problemas triviais como o movimento das órbitas celestes.
O fato é que Deus nunca esteve entranhado num aspecto natural do mundo, mas numa esfera metafísica. É o Motor Imóvel, a causa primeira e última de todas as coisas, Aquele cuja Essência é a própria Existência. Quando Moisés O pede para contar Seu Santo nome, Ele responde “Eu Sou aquele que Sou”. O próprio Ser em Si Mesmo.
Como então a ciência se relaciona com a fé? Alguém pode se perguntar. Bem, parte da pergunta já foi respondida em parágrafos anteriores. A ciência é a descoberta das causas secundárias, isto é, das causas que se posicionam entre Deus e as diferentes proporcionalidades da Criação. Quando um astrofísico, por exemplo, abstrai do comportamento das órbitas celestes equações matemáticas, e por meio delas faz extrapolações e previsões, tudo o que ele fez foi estudar sua estrutura. Nas palavras do filósofo naturalista Bertrand Russel:
“Nem sempre é entendido o quanto excessivamente abstrata é a informação que a física teórica tem para dar. Ela fornece certas equações fundamentais que a possibilitam lidar com a estrutura lógica dos eventos, enquanto deixa completamente desconhecido a natureza intrínseca dos eventos que possuem a estrutura. Nós apenas sabemos a natureza intrínseca dos eventos quando eles ocorrem conosco. Absolutamente nada na física teórica nos possibilita dizer coisa alguma sobre a natureza dos eventos em outros lugares. Eles podem ser exatamente como os eventos que ocorrem conosco, ou ser completamente diferentes de modos completamente inimagináveis. Tudo o que a física nos dá são certas equações que demonstram as propriedades abstratas de suas mudanças. Mas sobre o que é que muda, e do que muda e para que muda – sobre isso, a física permanece silenciosa” (1985, p. 13 – tradução livre)
Dessa forma, quando é presumido que a ciência nos dá uma descrição exaustiva da realidade, o que se faz é basicamente descartar os aspectos qualitativos da matéria como irrelevantes, enquanto que são exaltados aqueles que podem ser descritos por meio de equações matemáticas. Mas esses aspectos (qualitativos) não só existem, como mesmo a princípio a ciência nunca poderá nos dizer nada a respeito deles.
A implicação desse fato é que precisamos de algo para além das ciências naturais que possa atacar esses outros problemas, que são no mínimo tão pertinentes quanto aqueles que são solucionados pelas equações da física. A infelicidade do mundo moderno é que se um conhecimento não tem aplicação prática, ele é jogado para a esfera individual e deve permanecer lá como mera “opinião”.
E é aí que entra a filosofia. Essa área do conhecimento é a que faz a ponte entre o imanente e o transcendente, isto é, é por meio dela que entendemos a relação entre as ciências naturais e a teologia. É verdade que é por meio de argumentos metafísicos que chegamos à existência do Deus do Teísmo Clássico, e estes pertencem apenas à filosofia. Contudo, é possível utilizar as ciências naturais para corroborar uma premissa num argumento filosófico cujas conclusões têm importância teológica (falando assim fica bonito, né?). Mas deixe-me ilustrar o que quero dizer.
Atualmente existe um argumento cosmológico para a existência de Deus que se chama argumento cosmológico Kalam, que pode ser formulado da seguinte forma:
(1) Tudo o que começa a existir tem uma causa para a sua existência
(2) O Universo começou a existir
(3) Portanto, o Universo tem uma causa para a sua existência
É claro que, mediante a análise de quais atributos essa causa deveria ter, chega-se a algo que pelo menos tem algum grau de semelhança com aquilo a que sempre se entendeu como Deus. Mas no presente momento, apenas quero ressaltar o fato de que a premissa (2) pode ser corroborada por meio das evidências científicas que temos à disposição que afirmam o início absoluto do Universo no Big Bang, por exemplo.
Mas se reconhecemos que existem áreas do conhecimento que produzem conclusões tão racionais quanto as que a ciência nos oferece, e que elas podem ter claras implicações teológicas, evidente que podemos falar da fé racional, ou seja, da crença em Deus racionalmente justificada e que pode ser defendida não como mera “opinião”, mas como argumento objetivo. É claro que nem todo mundo ficará contente com o que isso pode implicar para as discussões numa esfera pública e farão de tudo para afastar esse entendimento da fé do homem comum.
Para concluir o raciocínio, queria colocar um ponto observado por C. S. Lewis, em seu livro "A abolição do homem", que trata majoritariamente dessa prática comum entre os apoiadores da modernidade de tentarem abolir tudo aquilo que não encaixa no seu método. O grande problema é que acabam por abolir o próprio homem:
“O último estágio terá chegado quando o Homem tiver obtido controle total sobre si mesmo [...]. A natureza Humana será a última parte da Natureza a se render ao Homem. A batalha terá, então, sido vencida. Teremos ‘arrancado o fio de vida das mãos de Clotho’ e, a partir daí, estaremos livres para fazer da nossa espécie o que bem entendermos. A batalha terá sido vencida, de fato. Mas quem, mais precisamente, terá vencido?” (A abolição do homem, p. 59)


FALÁCIAS DE CADA DIA... (por Igor Gaviano)

A falácia ad hominem dispensa apresentações, apesar de ser utilizada virtualmente em todas as discussões neste tempo.

Para aqueles que talvez não estejam familiarizados com ela, se trata de atacar o caráter de uma pessoa em vez de refutar os argumentos que ela apresenta.

Pensemos em um exemplo:

(Falante A): "Olha, particularmente, eu penso que usar drogas ilícitas seja errado e deva haver sanções legais para isso"

(Falante B): "Mas eu não te vi xingando sua mãe outro dia? Me poupe, não vou levar alguém assim a sério"

Acho que o que o exemplo ilustra bem é o fato de que, apesar de ter um peso retórico imenso, o segundo falante não fez nada para refutar o posicionamento do primeiro. Na verdade, mesmo que o segundo falante estivesse completamente correto, e mesmo que o primeiro realmente fosse culpado do que ele acusa, isso em nada impacta no argumento que está sendo oferecido.

E o que eu queria discutir, e a imagem do post ilustra bem, é um modo particular da falácia ad hominem, denominada tu quoque.

Olhe o seguinte diálogo:

(Falante A): "Olha, eu acho que fumar seja extremamente prejudicial à saúde"

(Falante B): "Ei, espere um momento! Mas você é o maior fumante que eu conheço. Não vou te levar a sério, você deve estar errado"

Claramente se trata de uma falácia ad hominem, mas com o aspecto particular de declarar uma pessoa uma hipócrita para assim, tentar descredibilizar seus argumentos.

Como o próprio nome diz, se trata de uma falácia, sem peso argumentativo algum. E se combinássemos de parar de usá-la e discutir coisas que realmente importam?

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

TODAS AS VIDAS IMPORTAM? (por Igor Gaviano)

Recentemente uma discussão fervorosa agitou os quatro cantos do Twitter. O tópico, você pergunta? Bem, algumas pessoas insistiam que o fato de que 2 + 2 = 4 é uma invenção da branquitude ocidental com o puro propósito de colonizar e exterminar outros povos. Os membros da Ku Klux Klan certamente e com um sorriso no rosto fariam essa concessão de que a racionalidade pertence exclusivamente a indivíduos de pele branca, e a ideologia de Hitler a aclamaria como representante da verdadeira consciência racial.

De fato, que 2 + 2 = 4 é uma verdade necessária é evidente para todos os povos, raças e etnias em todos os lugares e em todos os tempos. Para se apropriar da frase de um cristão utilizada em outro contexto, é uma crença tida Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus. E por que é algo tão universal? Basta perceber as consequências de se negar uma verdade tão evidente.

Para começar, 2 + 2 é uma das definições de 4, de modo que negar que 2 + 2 é igual a quatro é negar que 4 é igual a 4, o que viola o princípio da não contradição, em que algo não pode ser e não ser a mesma coisa ao mesmo tempo. Bem, antes que você pronuncie, com ar de vitória "A-ha! Pois bem, apenas neguemos o princípio da não contradição!", pense no que isso acarreta para as suas ideias.

Se o princípio da não contradição não for verdade, ele pode ser e não ser verdade ao mesmo tempo. Na verdade, tudo isso pode ser e não ser verdade ao mesmo tempo, inclusive que 2 + 2 = 4. Se isso parece absurdo, acho que consegui expressar meu ponto.

O que me leva ao cerne da questão deste texto. Acredito que neste momento praticamente toda a internet esteja mobilizada e chocada com o recente caso da menina de apenas 10 anos que, após ser estuprada por alguém que sem dúvida alguma deva passar por sério acompanhamento psiquiátrico, além de passar o resto dos seus dias na prisão, concebeu mas não deu à luz um filho.

Que a situação merece todo o cuidado para ser tratada deve ser tido como pressuposto nessa altura do campeonato. Ninguém defenderia o estuprador (eu espero) e ninguém disputa o fato de que o que ocorreu foi horrível e que uma moça não deva perder sua inocência de uma forma tão violenta e precoce (igualmente espero). Uma criança incumbida de carregar em seu ventre outra criança...

Porém, mesmo concordando plenamente de quem foi o culpado pela questão, e que o fato nunca deveria ter ocorrido, novamente a polarização ressurgiu nas mídias sociais. Meu intuito é demonstrar que pouca se alguma diferença existe entre a discussão atual e a de que 2 + 2 não necessariamente é igual a 4.

Para começar a discussão, é primeiro necessário estabelecer uma base comum em que todos os lados concordam, já que uma verdadeira discussão apenas segue em frente e é frutuosa se, mediante concessões, cada um dos lados consegue estabelecer mais "terreno comum" em que possa desenvolver suas ideias.

Assim, cabe perguntar se a moralidade é algo que é objetivo e presente na realidade ou se é mera convenção e relativa a tempo, lugar e cultura. É importante entender que, se dizemos que algo é relativo, isso significa que, por si só, a coisa não tem significado algum. Por exemplo, se eu digo que a moralidade é relativa, a proposição "torturar crianças por diversão é errado" tem tanto significado quanto "aihdisau dinaidnisa bhsdbdi", visto que ela é completamente dependente de um observador que lhe estabeleça o significado que se propõe a carregar.

Isso acontece também em decorrência do princípio da não contradição. Pare para pensar: se eu digo que a moralidade é relativa, então "torturar crianças por diversão é errado" e "torturar crianças por diversão é correto" devem ter o mesmo valor semântico. Contudo, se as duas tivessem significado, isso violaria o princípio da não contradição, já que algo seria verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Assim, a solução é esvaziar elas de todo o seu sentido.

Portanto, como eu penso que a maioria esmagadora das pessoas acredita que "torturar crianças é errado" é uma proposição verdadeira, isso implica que torturar crianças é objetivamente errado, o que leva à conclusão que a moralidade é objetiva.

Que a moralidade é objetiva também é uma obviedade percebida Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus, por culturas completamente isoladas umas das outras, e não deveria ser um ponto sério de disputa. Na verdade, eu manteria que absolutamente ninguém seriamente acredita que a moralidade é relativa, visto que a mesma cultura que propõe essa solução é a que advoga por "direitos dos animais", "salvar o planeta" e "tolerância", como se cada uma dessas coisas fosse objetivamente boa. Ora, se a moralidade é relativa, de que importa salvar o planeta, combater o racismo e a homofobia e salvar vidas usando máscaras?

Assim, se a moralidade é objetiva e realmente existe na realidade (deixando de lado a discussão sobre a distinção entre ser e dever), então há certas coisas que sempre devemos fazer e há certas coisas que sempre devemos evitar. Por exemplo, sempre devemos agir de maneira justa e não devemos agir de maneira injusta, devemos oferecer carinho e cuidado a criancinhas e não torturá-las, devemos dizer a verdade e não contar mentiras, etc.

Uma dessas coisas que é objetivamente errada é direta e intencionalmente tirar uma vida inocente. Na verdade isso é tão universalmente defendido que goza de proteção legal, de modo que o ato de tirar uma vida inocente tem sua própria alcunha: homicídio.

Um homicídio nunca é justificado. Nas palavras do Papa Francisco: "é justo contratar um assassino para resolver um problema?". Assim, a discussão que deveria ser tida não é se o aborto foi justificado, pois já estabelecemos que, em se tratando de uma vida inocente, por definição, não há justificativa para direta e intencionalmente tirá-la.

A verdadeira discussão é se o feto se trata de uma vida, e é isso que me apavorou mediante as respostas que vi nas redes sociais, visto que pouco ou nada se discutiu a respeito disso, como se se tratasse de algo secundário à questão.

Mais apavorante ainda é o fato que, na verdade, mesmo muitas das pessoas que são a favor da legalização do aborto, são contra quando se passa da 15ª semana, visto que a definição que eles têm de "vida" começaria a valer a partir desse período. Sem entrar no mérito da absurdidade desse ponto de vista, e o quanto ele é degradante à natureza humana, me tira o sono o fato que, mesmo crendo que o feto é uma vida, encontra-se pessoas querendo "justificar" o que elas mesmo, por consequência lógica, acreditam ser um homicídio.

O que nos leva novamente para a discussão tão ridícula a ponto de parecer uma auto-sátira da cultura pós-moderna com respeito à questão de se 2 + 2 = 4. A mesma cultura repleta de "pais de pet" que verdadeiramente se sacrificam pelos seus animais de estimação é a que banaliza vidas humanas e as trata com a trivialidade de quem mata uma infestação de baratas.

Nas palavras nunca mais atuais que agora de G. K. Chesterton: "aonde quer que haja adoração de animais, lá haverá sacrifícios humanos".

A adoração de animais já começou, e os sacrifícios humanos aos poucos estão novamente mostrando a sua desfigurada face, a começar pela triste notícia que a internet recebeu hoje.

Cor Jesu sacratíssimum, miserere nobis

Uma hipótese

O que é um texto? Se um texto for a lista de símbolos que ele representa, duas pessoas diferentes podem ler o exato mesmo texto e ter interp...