A falácia ad hominem dispensa apresentações, apesar de ser utilizada virtualmente em todas as discussões neste tempo.
Para aqueles que talvez não estejam familiarizados com ela, se trata de atacar o caráter de uma pessoa em vez de refutar os argumentos que ela apresenta.
Pensemos em um exemplo:
(Falante A): "Olha, particularmente, eu penso que usar drogas ilícitas seja errado e deva haver sanções legais para isso"
(Falante B): "Mas eu não te vi xingando sua mãe outro dia? Me poupe, não vou levar alguém assim a sério"
Acho que o que o exemplo ilustra bem é o fato de que, apesar de ter um peso retórico imenso, o segundo falante não fez nada para refutar o posicionamento do primeiro. Na verdade, mesmo que o segundo falante estivesse completamente correto, e mesmo que o primeiro realmente fosse culpado do que ele acusa, isso em nada impacta no argumento que está sendo oferecido.
E o que eu queria discutir, e a imagem do post ilustra bem, é um modo particular da falácia ad hominem, denominada tu quoque.
Olhe o seguinte diálogo:
(Falante A): "Olha, eu acho que fumar seja extremamente prejudicial à saúde"
(Falante B): "Ei, espere um momento! Mas você é o maior fumante que eu conheço. Não vou te levar a sério, você deve estar errado"
Claramente se trata de uma falácia ad hominem, mas com o aspecto particular de declarar uma pessoa uma hipócrita para assim, tentar descredibilizar seus argumentos.
Como o próprio nome diz, se trata de uma falácia, sem peso argumentativo algum. E se combinássemos de parar de usá-la e discutir coisas que realmente importam?
Excelente texto!
ResponderExcluirOlá, Igor
ResponderExcluirQuando se trata de falácias estamos entrando no campo da Lógica. Existem muitos mais casos do que os que você usou como exemplo. O prof. Fábio Salgado já falou que "não existe um procedimento algorítimico, finito, para que a gente determine quem ganhou ou quem perdeu a discussão".
"...Quando a gente tem em vista os contextos especificamente, uma falácia pode ser salva. Algo que é tido por falácia em certo contexto, pode não ser falacioso em outro. Por exermplo: uma pesso que diz que é um bom retórico, "sou um grande orador", e você fala que ela é fanha e gaga. Com relação ao argumento 'ad hominem', isso seria falacioso? Não seria, porque presupõe-se que uma pessoa que é um bom orador não seja fanha e gaga..." (Fábio Salgado de Carvalho)
O prof. Fábio sempre chama a atenção para o fato de que poucas pessoas estudam a Lógica Clássica e a Lógica Moderna. Procure o prof. para ter uma boa orientação.
Anônimo
ExcluirVocê diz:
"não existe um procedimento algorítmico, finito, para que a gente determine quem ganhou ou quem perdeu a discussão"
Isso é verdade, mas se uma das partes tem um argumento falacioso, ela já perdeu a discussão antes mesmo que se analisem as premissas (já que o argumento dela não é válido).
E continua:
Algo que é tido por falácia em certo contexto, pode não ser falacioso em outro. Por exemplo: uma pessoa que diz que é um bom retórico, "sou um grande orador", e você fala que ela é fanha e gaga. Com relação ao argumento 'ad hominem', isso seria falacioso? Não seria, porque presupõe-se que uma pessoa que é um bom orador não seja fanha e gaga..."
Esse caso não é um argumento ad hominem justamente porque, ao contrário de quando essa falácia é utilizada, o fato da pessoa ser fanha e gaga tem impacto direto na afirmação que ela fez quando disse ser uma boa oradora.
Tome as duas seguintes situações:
Falante A: Sou um bom orador
Falante B: Não, você não é um bom orador porque é fanho e gago.
Podemos resumir esse argumento na forma modus ponens:
(1) Uma pessoa não pode ser gaga e fanha, ao mesmo tempo sendo uma boa oradora
(2) A pessoa X é gaga e fanha
(3) Portanto, a pessoa X não é uma boa oradora
Esse argumento é logicamente válido e não é falacioso. Agora considere outro exemplo:
Falante A: Sou um bom orador
Falante B: Não, você não é um bom orador porque é feio e gordo
E o argumento poderia ser resumido da seguinte forma:
(1) Uma pessoa não pode ser feia e gorda, ao mesmo tempo sendo uma boa oradora
(2) A pessoa X é feia e gorda
(3) Portanto, a pessoa X não é uma boa oradora
Esse argumento (formalmente falando), igualmente, é logicamente válido. Contudo, ele comete uma falácia ad hominem na medida em que conecta duas coisas sem vínculo lógico algum, a saber, o conceito de ser um bom orador e a aparência física da pessoa.
O tipo de argumento a que eu estava tentando chamar a atenção no texto é o segundo, justamente porque, em meio a essas discussões sobre aborto e afins, muitas pessoas gostam de acusar os cristão de hipócritas, falsos e imorais, ao que eu respondi que, mesmo que tudo isso fosse verdade, isso não faz absolutamente nada para invalidar os argumentos oferecidos.