Recentemente uma discussão fervorosa agitou os quatro cantos do Twitter. O tópico, você pergunta? Bem, algumas pessoas insistiam que o fato de que 2 + 2 = 4 é uma invenção da branquitude ocidental com o puro propósito de colonizar e exterminar outros povos. Os membros da Ku Klux Klan certamente e com um sorriso no rosto fariam essa concessão de que a racionalidade pertence exclusivamente a indivíduos de pele branca, e a ideologia de Hitler a aclamaria como representante da verdadeira consciência racial.
De fato, que 2 + 2 = 4 é uma verdade necessária é evidente para todos os povos, raças e etnias em todos os lugares e em todos os tempos. Para se apropriar da frase de um cristão utilizada em outro contexto, é uma crença tida Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus. E por que é algo tão universal? Basta perceber as consequências de se negar uma verdade tão evidente.
Para começar, 2 + 2 é uma das definições de 4, de modo que negar que 2 + 2 é igual a quatro é negar que 4 é igual a 4, o que viola o princípio da não contradição, em que algo não pode ser e não ser a mesma coisa ao mesmo tempo. Bem, antes que você pronuncie, com ar de vitória "A-ha! Pois bem, apenas neguemos o princípio da não contradição!", pense no que isso acarreta para as suas ideias.
Se o princípio da não contradição não for verdade, ele pode ser e não ser verdade ao mesmo tempo. Na verdade, tudo isso pode ser e não ser verdade ao mesmo tempo, inclusive que 2 + 2 = 4. Se isso parece absurdo, acho que consegui expressar meu ponto.
O que me leva ao cerne da questão deste texto. Acredito que neste momento praticamente toda a internet esteja mobilizada e chocada com o recente caso da menina de apenas 10 anos que, após ser estuprada por alguém que sem dúvida alguma deva passar por sério acompanhamento psiquiátrico, além de passar o resto dos seus dias na prisão, concebeu mas não deu à luz um filho.
Que a situação merece todo o cuidado para ser tratada deve ser tido como pressuposto nessa altura do campeonato. Ninguém defenderia o estuprador (eu espero) e ninguém disputa o fato de que o que ocorreu foi horrível e que uma moça não deva perder sua inocência de uma forma tão violenta e precoce (igualmente espero). Uma criança incumbida de carregar em seu ventre outra criança...
Porém, mesmo concordando plenamente de quem foi o culpado pela questão, e que o fato nunca deveria ter ocorrido, novamente a polarização ressurgiu nas mídias sociais. Meu intuito é demonstrar que pouca se alguma diferença existe entre a discussão atual e a de que 2 + 2 não necessariamente é igual a 4.
Para começar a discussão, é primeiro necessário estabelecer uma base comum em que todos os lados concordam, já que uma verdadeira discussão apenas segue em frente e é frutuosa se, mediante concessões, cada um dos lados consegue estabelecer mais "terreno comum" em que possa desenvolver suas ideias.
Assim, cabe perguntar se a moralidade é algo que é objetivo e presente na realidade ou se é mera convenção e relativa a tempo, lugar e cultura. É importante entender que, se dizemos que algo é relativo, isso significa que, por si só, a coisa não tem significado algum. Por exemplo, se eu digo que a moralidade é relativa, a proposição "torturar crianças por diversão é errado" tem tanto significado quanto "aihdisau dinaidnisa bhsdbdi", visto que ela é completamente dependente de um observador que lhe estabeleça o significado que se propõe a carregar.
Isso acontece também em decorrência do princípio da não contradição. Pare para pensar: se eu digo que a moralidade é relativa, então "torturar crianças por diversão é errado" e "torturar crianças por diversão é correto" devem ter o mesmo valor semântico. Contudo, se as duas tivessem significado, isso violaria o princípio da não contradição, já que algo seria verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Assim, a solução é esvaziar elas de todo o seu sentido.
Portanto, como eu penso que a maioria esmagadora das pessoas acredita que "torturar crianças é errado" é uma proposição verdadeira, isso implica que torturar crianças é objetivamente errado, o que leva à conclusão que a moralidade é objetiva.
Que a moralidade é objetiva também é uma obviedade percebida Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus, por culturas completamente isoladas umas das outras, e não deveria ser um ponto sério de disputa. Na verdade, eu manteria que absolutamente ninguém seriamente acredita que a moralidade é relativa, visto que a mesma cultura que propõe essa solução é a que advoga por "direitos dos animais", "salvar o planeta" e "tolerância", como se cada uma dessas coisas fosse objetivamente boa. Ora, se a moralidade é relativa, de que importa salvar o planeta, combater o racismo e a homofobia e salvar vidas usando máscaras?
Assim, se a moralidade é objetiva e realmente existe na realidade (deixando de lado a discussão sobre a distinção entre ser e dever), então há certas coisas que sempre devemos fazer e há certas coisas que sempre devemos evitar. Por exemplo, sempre devemos agir de maneira justa e não devemos agir de maneira injusta, devemos oferecer carinho e cuidado a criancinhas e não torturá-las, devemos dizer a verdade e não contar mentiras, etc.
Uma dessas coisas que é objetivamente errada é direta e intencionalmente tirar uma vida inocente. Na verdade isso é tão universalmente defendido que goza de proteção legal, de modo que o ato de tirar uma vida inocente tem sua própria alcunha: homicídio.
Um homicídio nunca é justificado. Nas palavras do Papa Francisco: "é justo contratar um assassino para resolver um problema?". Assim, a discussão que deveria ser tida não é se o aborto foi justificado, pois já estabelecemos que, em se tratando de uma vida inocente, por definição, não há justificativa para direta e intencionalmente tirá-la.
A verdadeira discussão é se o feto se trata de uma vida, e é isso que me apavorou mediante as respostas que vi nas redes sociais, visto que pouco ou nada se discutiu a respeito disso, como se se tratasse de algo secundário à questão.
Mais apavorante ainda é o fato que, na verdade, mesmo muitas das pessoas que são a favor da legalização do aborto, são contra quando se passa da 15ª semana, visto que a definição que eles têm de "vida" começaria a valer a partir desse período. Sem entrar no mérito da absurdidade desse ponto de vista, e o quanto ele é degradante à natureza humana, me tira o sono o fato que, mesmo crendo que o feto é uma vida, encontra-se pessoas querendo "justificar" o que elas mesmo, por consequência lógica, acreditam ser um homicídio.
O que nos leva novamente para a discussão tão ridícula a ponto de parecer uma auto-sátira da cultura pós-moderna com respeito à questão de se 2 + 2 = 4. A mesma cultura repleta de "pais de pet" que verdadeiramente se sacrificam pelos seus animais de estimação é a que banaliza vidas humanas e as trata com a trivialidade de quem mata uma infestação de baratas.
Nas palavras nunca mais atuais que agora de G. K. Chesterton: "aonde quer que haja adoração de animais, lá haverá sacrifícios humanos".
A adoração de animais já começou, e os sacrifícios humanos aos poucos estão novamente mostrando a sua desfigurada face, a começar pela triste notícia que a internet recebeu hoje.
Cor Jesu sacratíssimum, miserere nobis

Muito pertinente o texto Igor. Confesso que não possuo a mesma crença religiosa que você, mas com certeza entendo a necessidade de valores-guias essencialmente não contraditórios. Enquanto você estava falando do princípio da não contradição em relação a 2+2 ser ou não igual a 4, não pude evitar de pensar em toda a discussão dentro do livro 1984 (George Orwell) e sobre a entidade do "Ministério da Verdade". Se não houver ainda tido a possibilidade de lê-lo, recomendo fortemente.
ResponderExcluirTermino este comentário com uma citação do livro A Revolta de Atlas: "A realidade, por essência, não permite contradições. Sempre que você achar que está enfrentando uma contradição, verifique suas premissas. Você vai descobrir que alguma delas é falsa"
Muito pertinente o comentário André, agradeço o carinho! Vou prontamente procurar arranjar o 1984 para dar uma lida.
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