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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Aprender a desatar-se das amarras do passado (por Igor Gaviano)


«Eu confesso que é esta a minha dor:

‘A mão de Deus não é a mesma: está mudada!’» (Sl 76) 

    

    O homem atado consome-se em sua angústia e esta o priva do descanso. Em meio às trevas do ocaso as tentações passam a aflorar-se e a revelar à alma a verdadeira escuridão que a vida interior proporcionará aos que não escutam e guardam toda a Palavra... E aos que a escutam com atenção. Os olhos turvos pelos sentidos trazem à tona a vulnerabilidade do egoísmo e buscam consolo na mundaneidade. O inimigo desvela-se para desferir seu ataque.

    A forma revelada pelos anjos decaídos é não tanto a de bestas ferozes mas a dos tormentos agonizantes de um passado frustrado. Antigos retratos, cartas apaixonadas e presentes carinhosamente preparados: tudo isso que fora fonte de júbilo agora torna-se pedra de tropeço para uma noite pacífica. A pintura retratada pelas imagens que vem à memória clama por um explicação: «Teria eu vivido uma mentira, uma piada de mau gosto?».

    Não... Ou ao menos é aquilo em que o sujeito tenta acreditar para que não passe uma noite a mais em claro.

    Raciocinando em vão, a mente entra num embate solitário na tentativa de penetrar suas dúvidas mais profundas. O homem passa a ter duas cabeças e um só coração, já transpassado pelo desgaste. Seu olhar busca refúgio em sinais visíveis de um passado invisível, sacramentos da história.

    Um colar não é mais apenas um colar, mas uma jura de amor; um retrato torna-se uma planificação da tridimensionalidade de alegrias vividas; as cartas são verdadeiros testamentos de fidelidade. Os nobres sentimentos, repentinamente frustrados, transmutam-se em agonia fermentada pelo pó da terra. O homem novo cede lugar ao homem velho, tomado pelo rancor e sedento de uma pérfida vingança.

    Diz consigo mesmo, como o salmista:

«Eu confesso que é esta a minha dor:

‘A mão de Deus não é a mesma: está mudada!’» (Sl 76) 

    E tudo parece ruir em sua inescapável melancolia.

    Há aquele, no entanto, que busca saciedade não no pão do mundo mas no Pão do Céu advindo de escutar a Palavra e a pôr em prática. No desespero de um turbilhão de ideias mal organizadas recorda-se dos ditos seguintes do mesmo salmista:

«Mas, recordando os grandes feitos do passado,

vossos prodígios eu relembro, ó Senhor; 

– eu medito sobre as vossas maravilhas

e sobre as obras grandiosas que fizestes. » (Sl 76) 

    A sabedoria do Gólgota na Sexta-Feira da Paixão, onde apenas escutava-se os prantos copiosos da Virgem e via-se a luz gélida de uma Lua cheia, é aquela que porfim põe termo à melancolia, pois os gemidos de um coração ferido pela espada, ainda que sejam agonizantes, são distintos em qualidade daqueles advindos dos rancores do passado. O coração que escuta a Palavra com atenção e a guarda como um tesouro não é privado de agonias, mas permanece em repouso sereno assegurado da esperança da vida futura.

    A solução, portanto, é deixar-se afligir pelas angústias da vida com a firme convicção de que o Senhor acalmará a tempestade - mesmo que Ele próprio esteja em sono profundo - e recordar os grandes feitos do passado, ou seja, a obra que Deus pretendeu operar através da permissão das frustrações. Deve-se permitir que o passado se consuma numa fornalha ardente e que suas brasas flamejantes não resultem no incêndio do chalé interior mas no combustível da alma operada pela graça.

    Não é necessário sacramentos da história enquanto se possui sacramentos da eternidade.


P.X.,

Igor Gaviano


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