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sábado, 22 de outubro de 2022

A coragem face ao desespero (por Igor Gaviano)

 

“As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.” (Mt 8, 20)

    O mundo moderno transborda em promessas. Basta que sigamos os ditames da modernidade e seremos verdadeiramente felizes, temos por garantia de nossos soberanos. Uma vez que a patente falsidade de tão louca afirmação se encontra com a realidade individual da tristeza, surge o desespero.

    Uma vez presente o sentimento de impotência, dá-se a segurança de que é porque não nos conformamos verdadeiramente ao ideal. Mas soluções para isso também foram boladas: 《falta-lhe a realização de sua sexualidade》, 《não se preocupe, há sempre Prozac》, 《você não atingiu a verdadeira libertação dos carcereiros dos bons costumes》.

    Pois são estes, os "carcereiros" que pregam os bons costumes, a verdadeira raiz de todos os problemas psíquicos da sociedade, ao menos de acordo com os ditos "especialistas" que pretendem saber exatamente do que se trata o desespero do homem moderno. Mas o Sr. Silva, o homem comum, sempre soube que havia algo de errado com isso, apenas não tinha como pôr em palavras visto que seus próprios pensamentos são constantemente regrados pelas normas incutidas pelos mesmos "especialistas" em sua juventude.

    Sr. Silva, agora afogado num sentimento de tristeza profunda e fingindo que adere piamente às soluções propostas pela alta classe, passa a sentir um despertencimento do mundo. A conclusão a que chega é que a única e inevitável saída é a destruição, não das ideias que o trouxeram a tal estado, mas a de si mesmo e do mundo ao seu redor.

    Alguns dizem que Sr. Silva na verdade deveria ser Sra. Silva. Seria este o problema? Sr. Silva apenas nasceu no corpo errado?

    Outros, ainda, insistem que Sr. Silva não se livrou completamente das amarras de seu tradicionalismo enraizado, e sua paixão pela Sra. Araújo demonstra claramente esse fato. Sr. Silva desde a mais tenra juventude desejou casar-se com ela, constituir uma família e ter filhos para educar e formar nas virtudes. Ora, blasfêmia! Não impressiona que esteja afundado em tamanha miséria, é certamente uma punição de Afrodite. O matrimônio é a invenção de uma sociedade patriarcal e apenas oprime os indivíduos que não podem agora realizar-se na dimensão mais importante de suas vidas: a sexualidade desregrada.

    Há também os que transferem a culpa para a conta de uma transferência bancária, ou melhor, para a falta de uma. Ah! Se o Sr. Silva tivesse dinheiro o suficiente, ele não viveria triste! Ou melhor, se todos fossem tão miseráveis quanto ele, não haveria tristeza pois a miséria adora companhia. A solução é abolir todo o tipo de propriedade privada, mesmo aquela pertencente ao próprio Sr. Silva.

    Os sete pecados capitais tornam-se as sete condições de uma vida feliz.

    E, sem causar espanto, a irrealidade das abstrações se desmancha perante a concretude do desespero. A destruição concreta e absoluta, então, parece ser a única solução: o suicídio.

    Mas os senhores especialistas já pensaram nisso também, e não se incomodam e oferecer ao Sr. Silva "morte medicamente assistida", pois suicídio é uma palavra triste e chocante demais para ser adotada por eles.

    Sr. Silva, já numa fila pra receber as medicações que provocarão sua destruição é assegurado de que está no caminho correto. E esse é o fim de Sr. Silva, um homem comum.

    Talvez tudo o que era necessário para frear e reverter a situação toda fosse uma pessoa corajosa o suficiente para relembrar o Sr. Silva de que não fora ele quem enlouquecera, mas todo o resto da humanidade. Alguém que afirmasse em bom tom o valor intrínseco da vida humana e que o sofrimento é inerente a ela. Que lembrasse ao nosso homem comum que a felicidade não vem através da destruição de estruturas deixadas a nós por homens incríveis, talentosos artesãos, mas pela afirmação e conformação a elas. Algumas delas foram até mesmo planejadas desde toda a eternidade, por um Divino Artesão...

    Era necessário que alguém o lembrasse que

“Se encontramos em nós um desejo que nada neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fomos criados para outro mundo.” (C. S. Lewis)

P.X.,
Igor Gaviano 


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