ESTÁ ENTREGUE
Era
tarde da noite, já fadigado do trabalho diário, resolvo dar um passeio. Poucos
dias atrás, eu havia sido diagnosticado com uma doença degenerativa que
afetaria minha visão, e já percebia que ela estava falhando. Não era ainda tão
perceptível, mas ao olhar para meu relógio de pulso, mal conseguia enxergar os
ponteiros que sumiam e se fundiam às cores do ambiente.
Ao
passear pelas ruas desertas e pouco iluminadas, não consigo ouvir nem mesmo o
ruído de uma mãe se queixando da sala bagunçada. Era quase meia-noite quando
saí de casa, as crianças já foram dormir há muito tempo.
É
na escuridão noturna que o brilho se realça de forma mais sublime assim que ele
alcança a visão, e um brilho particular me cativou o olhar. Era um pequeno edifício
de formato pouco usual e, de dentro dele, algo de diferente resplandecia. Naquele
momento, tempo era o que não me faltava. Decidi entrar.
Ao
passar pela porta, a escuto fechar atrás de minha cabeça. Confiro, está
trancada. O medo me sobe à espinha, suor amargo corre sobre meus olhos, não
havia mais volta. Lá dentro também não se escutava nada a não ser as
fortes batidas de um coração arrependido por ter dado o primeiro passo
adiante. Decido então tentar encontrar outra saída, e é claro que isso
significava ter que explorar aquele edifício para além do breve e apertado
saguão.
Uma
porta à minha frente estava aberta, não tardo em atravessá-la. Quando o faço,
percebo algo de macabro mas ao mesmo tempo fantástico «seria esse lugar
em que me encontrava o mesmo no qual entrei?», me perguntava. O motivo
era que aquela sala, também soturna e misteriosa, deveria se estender por pelo
menos 300 metros adiante, algo aparentemente impossível dado o tamanho do
pequeno edifício. Digo “pelo menos” porque era até onde a vista alcançava,
depois disso, escuridão.
De
todo modo, não havia o que fazer, além de caminhar. Foram mais de 30 minutos de
caminhada e a percepção inicial de que 300 metros deveria ser a extensão daquele
cômodo começou a parecer uma ingênua ilusão. As luzes se acendiam uma a uma
a cada 100 metros percorridos, a jornada parecia apenas começar.
Começo a sentir um
enorme peso sobre meus ombros, quase como se estivesse em outro
planeta em que a gravidade exerceria uma força sobre mim de 10 a 20 vezes maior.
Não era uma sensação agradável.
E
conforme o peso ia se aumentando, concomitantemente as luzes se enfraqueciam. Começa a chover do lado de fora, ao menos pelo que os meus sentidos
fazem parecer. O cheiro do ambiente aos poucos se torna de sangue fresco, e meu
coração me pede para parar e descansar. Contudo, ao que parecia, uma
parada ia significar morte, visto que não tinha certeza se conseguiria levantar
por conta do enorme peso que me era infligido.
As
trovoadas se tornam mais fortes e, mesmo que não houvesse janelas, de algum modo
começo a sentir a gélida ventania sobre a pele nua de meu rosto. O peso era forte
demais, não conseguia mais caminhar. Ali mesmo, fico de pé, mas imóvel e apavorado.
Então,
para o meu alívio, luzes à minha frente se acendem. Consigo ver uma grande
cortina vermelha, semelhante àquelas presentes em teatros
antigos. Por detrás dela, era visível a sombra de uma grande árvore, cujos
ramos retorcidos se estendiam por todo o comprimento da cortina. As luzes
novamente se apagam, o peso aumenta repentinamente e sou levado a cair.
«Seria
este o meu fim?», pensava. Quando estava quase sem esperanças, um forte
trovão atinge a cortina logo à minha frente, a qual é rasgada de cima a baixo e
começa a ser consumida pelo fogo, algo que eu não conseguia compreender, dado
que o cômodo era completamente fechado. Escuto um alto e retumbante brado que penetra
o mais profundo de minha alma. A cortina é consumida agora por completo pelo
fogo, assim como a árvore, e o peso simplesmente desaparece. Era um breu
completo.
Me levanto e fico parado onde estou, esperando e pensando no que havia acabado de acontecer, «Certamente devo estar sonhando >>, insistia comigo mesmo. Do completo silêncio começo a escutar sons familiares, como os cascos de vários cavalos. As luzes atrás de mim se acendem ao longe, e consigo observar uma grande multidão marchando em minha direção, conduzida por uma bela carruagem carregada por, contava eu, cerca de doze cavalos. Eu encosto na parede à minha direita pois não quero atrapalhar aquilo que está acontecendo, parece algo além da minha compreensão.
Olhando
novamente para o lugar onde se encontrava a árvore, percebo que nada mais é que
um grande salão de jantar, em cujo centro há um belo e suntuoso trono.
Ignorando a minha presença, a carruagem e seus grandes cavalos param e
lentamente os convidados que vinham atrás se assentavam nos bancos da mesa em
formato de “U”. Sentavam-se dezenas, centenas, milhares... Não conseguia mais
contar. Assim que todos se assentaram, os cavalos sozinhos se desataram da
carruagem e se organizaram, quase como se fossem inteligentes, seis em cada um
dos lados do trono.
Da
carruagem desce uma bela mulher, com certeza era a rainha. Não pude me conter e
tive de fazer uma profunda reverência, prostrando-me no chão. O gesto foi
prontamente notado por ela, que vinha claramente na minha direção, carregando
uma caixa toda de ouro e bastante ornamentada. «Todos esses serventes me
ignoraram e logo a rainha veio me cumprimentar? Apenas ela notou minha
presença?», eu me indagava. Ela para diante de mim e, com seu olhar tão
profundo quanto sua alma, faz um gesto para que me levante, sem dizer uma
palavra. Ela então aponta para a carruagem, e prontamente três dos servos que
estavam sentados vão em direção a ela.
Da
porta da carruagem sai o Rei, em toda a sua pompa. Ele era um homem forte e novo,
utilizava uma grande capa e cetro além de muitos outros ornamentos, com exceção
notável de um: a coroa. Os serventes ajudam o Rei a caminhar com suas
esplendorosas vestes. Ao passar do meu lado, ele me concede um piedoso e
caridoso olhar, como se me conhecesse há muito tempo, e também sou naturalmente
levado a me prostrar diante dele.
Os
serventes o conduzem até o trono, sobre o qual se assenta. A Rainha, agora ao
lado direito do trono, abre a caixa. Lá estava a coroa do Rei! Peça tão bela e
reluzente que um sentimento esmagador de transcendência se apossou do meu
espírito, o qual foi movido a uma certa piedosa reverência. Um dos serventes,
colocando grossas, belas e ornamentadas luvas, como se não pudesse tocar
naquela coroa com as mãos nuas, a toma e coloca-a na cabeça do Rei, o qual se
levanta em toda a sua glória, quase como que para que todos os presentes o
reverenciassem. E foi o que aconteceu.
Num
súbito, todos os presentes, com exceção do Rei, se colocam de joelhos. Cada um
deles, então, se levanta e vai até ele, aonde se colocam de joelhos novamente, para
que ele confira uma bênção. Depois de todos estarem abençoados, o Rei caminha
para mais à frente do seu trono e pede um inaudível favor àqueles três servos
que o acompanhavam mais de perto. Em pouco tempo, ali começava um banquete.
O
trono é removido e o Rei se assenta ao fundo da mesa, aonde todos possam vê-lo.
À frente dele, há pão e vinho. Proferida uma solene bênção sobre os alimentos,
o próprio Rei os reparte e passa para que os presentes possam desfrutar daqueles
dons. Eu, me sentindo indigno e distante daquela realidade, não ouso me
aproximar e mantenho-me naquele lugar em que estava. À direita do Rei estava a
Rainha, que parecia ter mais idade do que ele, apesar de ter uma beleza
feminina inigualável, chamando a atenção de todos os presentes.
Quando
o último pedaço de pão ia ser partido, o qual seria destinado ao Rei e à Rainha,
todos os presentes param de falar e dirigem seus olhares para o Rei, como que
na expectativa de que ele faça algo. O Rei, então, toma aquele pedaço de pão, o
parte em três pedaços, deixa um com a rainha e caminha na minha direção, com um
daqueles três servos. Um medo se apossa da minha alma e caio por terra quando
ele chega próximo de mim.
O
brilho de sua coroa quase me cegava, mas foi se tornando mais confortável a
cada passo que ele dava em minha direção. Eu, ainda caído, olho para o Rei,
agora em minha frente. Ele estende a própria mão para me levantar, e eu o faço. «Meu filho, de que tens medo?», disse o Rei. «Senhor, eu
não sou digno de que venhas até mim, mas dizei uma palavra que farei como
queres», respondi. Ele então olha para o seu servo, que tira a capa do
Rei e a coloca em mim. O Rei apenas olha para mim com aquele calmo olhar com que me
fitara mais cedo e, partindo o pão, me entrega.
Ele
dá um sinal e todos começam a comer, sendo que agora ele pediu aos servos que
armassem uma mesa apenas para nós, e comeu diretamente comigo. Eu não entendia
o que estava se passando, e o gesto do Rei me emudeceu até o último osso. Não
conseguia nem dizer “obrigado”, por pensar que não seria o suficiente para
expressar a gratidão que sentia naquele momento.
O
Rei também não falava nada, e não precisava. Isso porque era, de algum modo,
perfeitamente compreensível e incompreensível aquele gesto feito. Ele pediu a
sua taça de vinho e dela também bebi. Ao dar o último gole da taça, ele olhou
pra mim e com um sorriso e disse-me «Ide, está entregue!».
Antes que eu pudesse perguntar o significado daquelas palavras, subitamente
todas as luzes se apagaram e eu perdi a consciência.
Acordei
no chão, logo em frente àquele pequeno edifício. Três pessoas estavam em minha
volta. «O que aconteceu?», perguntei. O senhorzinho que sempre
passeava por essas bandas me respondeu «Você estava caminhando, meu
filho, e de repente te vir cair logo aqui na calçada». Então me
levantei, disse a eles que podiam voltar para casa que estava bem, mas ao menos
aquele senhor insistiu em me acompanhar de volta.
O
edifício ainda estava ali na minha frente. Assim que os outros se dispersaram,
perguntei ao senhor do que se tratava aquela construção diferente. «Estão
construindo uma Capela aqui neste local. Só espero que os malditos sinos que pensam
em colocar não perturbem o meu precioso silêncio...», ele respondeu. Não
disse uma palavra até chegar em casa. Me despedi do senhor, e entrei, ainda me
perguntando o significado de tudo o que havia acontecido. Certamente deveria
ser alguma alucinação decorrente do desmaio.
Já era muito tarde «Fiquei desacordado por muito tempo», pensei, e me perguntei «Que horas são?». Ao olhar para o relógio de pulso e descobrir que era meia-noite e meia, coloquei um sorriso no rosto e repeti comigo mesmo «Está entregue ».