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quinta-feira, 15 de julho de 2021

[CONTO] "Está entregue" (por Igor Gaviano)

 ESTÁ ENTREGUE

Era tarde da noite, já fadigado do trabalho diário, resolvo dar um passeio. Poucos dias atrás, eu havia sido diagnosticado com uma doença degenerativa que afetaria minha visão, e já percebia que ela estava falhando. Não era ainda tão perceptível, mas ao olhar para meu relógio de pulso, mal conseguia enxergar os ponteiros que sumiam e se fundiam às cores do ambiente.

Ao passear pelas ruas desertas e pouco iluminadas, não consigo ouvir nem mesmo o ruído de uma mãe se queixando da sala bagunçada. Era quase meia-noite quando saí de casa, as crianças já foram dormir há muito tempo.

É na escuridão noturna que o brilho se realça de forma mais sublime assim que ele alcança a visão, e um brilho particular me cativou o olhar. Era um pequeno edifício de formato pouco usual e, de dentro dele, algo de diferente resplandecia. Naquele momento, tempo era o que não me faltava. Decidi entrar.

Ao passar pela porta, a escuto fechar atrás de minha cabeça. Confiro, está trancada. O medo me sobe à espinha, suor amargo corre sobre meus olhos, não havia mais volta. Lá dentro também não se escutava nada a não ser as fortes batidas de um coração arrependido por ter dado o primeiro passo adiante. Decido então tentar encontrar outra saída, e é claro que isso significava ter que explorar aquele edifício para além do breve e apertado saguão.

Uma porta à minha frente estava aberta, não tardo em atravessá-la. Quando o faço, percebo algo de macabro mas ao mesmo tempo fantástico «seria esse lugar em que me encontrava o mesmo no qual entrei?», me perguntava. O motivo era que aquela sala, também soturna e misteriosa, deveria se estender por pelo menos 300 metros adiante, algo aparentemente impossível dado o tamanho do pequeno edifício. Digo “pelo menos” porque era até onde a vista alcançava, depois disso, escuridão.

De todo modo, não havia o que fazer, além de caminhar. Foram mais de 30 minutos de caminhada e a percepção inicial de que 300 metros deveria ser a extensão daquele cômodo começou a parecer uma ingênua ilusão. As luzes se acendiam uma a uma a cada 100 metros percorridos, a jornada parecia apenas começar.

Começo a sentir um enorme peso sobre meus ombros, quase como se estivesse em outro planeta em que a gravidade exerceria uma força sobre mim de 10 a 20 vezes maior. Não era uma sensação agradável.

E conforme o peso ia se aumentando, concomitantemente as luzes se enfraqueciam. Começa a chover do lado de fora, ao menos pelo que os meus sentidos fazem parecer. O cheiro do ambiente aos poucos se torna de sangue fresco, e meu coração me pede para parar e descansar. Contudo, ao que parecia, uma parada ia significar morte, visto que não tinha certeza se conseguiria levantar por conta do enorme peso que me era infligido.

As trovoadas se tornam mais fortes e, mesmo que não houvesse janelas, de algum modo começo a sentir a gélida ventania sobre a pele nua de meu rosto. O peso era forte demais, não conseguia mais caminhar. Ali mesmo, fico de pé, mas imóvel e apavorado.

Então, para o meu alívio, luzes à minha frente se acendem. Consigo ver uma grande cortina vermelha, semelhante àquelas presentes em teatros antigos. Por detrás dela, era visível a sombra de uma grande árvore, cujos ramos retorcidos se estendiam por todo o comprimento da cortina. As luzes novamente se apagam, o peso aumenta repentinamente e sou levado a cair.

«Seria este o meu fim?», pensava. Quando estava quase sem esperanças, um forte trovão atinge a cortina logo à minha frente, a qual é rasgada de cima a baixo e começa a ser consumida pelo fogo, algo que eu não conseguia compreender, dado que o cômodo era completamente fechado. Escuto um alto e retumbante brado que penetra o mais profundo de minha alma. A cortina é consumida agora por completo pelo fogo, assim como a árvore, e o peso simplesmente desaparece. Era um breu completo.

Me levanto e fico parado onde estou, esperando e pensando no que havia acabado de acontecer, «Certamente devo estar sonhando >>, insistia comigo mesmo. Do completo silêncio começo a escutar sons familiares, como os cascos de vários cavalos. As luzes atrás de mim se acendem ao longe, e consigo observar uma grande multidão marchando em minha direção, conduzida por uma bela carruagem carregada por, contava eu, cerca de doze cavalos. Eu encosto na parede à minha direita pois não quero atrapalhar aquilo que está acontecendo, parece algo além da minha compreensão.

Olhando novamente para o lugar onde se encontrava a árvore, percebo que nada mais é que um grande salão de jantar, em cujo centro há um belo e suntuoso trono. Ignorando a minha presença, a carruagem e seus grandes cavalos param e lentamente os convidados que vinham atrás se assentavam nos bancos da mesa em formato de “U”. Sentavam-se dezenas, centenas, milhares... Não conseguia mais contar. Assim que todos se assentaram, os cavalos sozinhos se desataram da carruagem e se organizaram, quase como se fossem inteligentes, seis em cada um dos lados do trono.

Da carruagem desce uma bela mulher, com certeza era a rainha. Não pude me conter e tive de fazer uma profunda reverência, prostrando-me no chão. O gesto foi prontamente notado por ela, que vinha claramente na minha direção, carregando uma caixa toda de ouro e bastante ornamentada. «Todos esses serventes me ignoraram e logo a rainha veio me cumprimentar? Apenas ela notou minha presença?», eu me indagava. Ela para diante de mim e, com seu olhar tão profundo quanto sua alma, faz um gesto para que me levante, sem dizer uma palavra. Ela então aponta para a carruagem, e prontamente três dos servos que estavam sentados vão em direção a ela.

Da porta da carruagem sai o Rei, em toda a sua pompa. Ele era um homem forte e novo, utilizava uma grande capa e cetro além de muitos outros ornamentos, com exceção notável de um: a coroa. Os serventes ajudam o Rei a caminhar com suas esplendorosas vestes. Ao passar do meu lado, ele me concede um piedoso e caridoso olhar, como se me conhecesse há muito tempo, e também sou naturalmente levado a me prostrar diante dele.

Os serventes o conduzem até o trono, sobre o qual se assenta. A Rainha, agora ao lado direito do trono, abre a caixa. Lá estava a coroa do Rei! Peça tão bela e reluzente que um sentimento esmagador de transcendência se apossou do meu espírito, o qual foi movido a uma certa piedosa reverência. Um dos serventes, colocando grossas, belas e ornamentadas luvas, como se não pudesse tocar naquela coroa com as mãos nuas, a toma e coloca-a na cabeça do Rei, o qual se levanta em toda a sua glória, quase como que para que todos os presentes o reverenciassem. E foi o que aconteceu.

Num súbito, todos os presentes, com exceção do Rei, se colocam de joelhos. Cada um deles, então, se levanta e vai até ele, aonde se colocam de joelhos novamente, para que ele confira uma bênção. Depois de todos estarem abençoados, o Rei caminha para mais à frente do seu trono e pede um inaudível favor àqueles três servos que o acompanhavam mais de perto. Em pouco tempo, ali começava um banquete.

O trono é removido e o Rei se assenta ao fundo da mesa, aonde todos possam vê-lo. À frente dele, há pão e vinho. Proferida uma solene bênção sobre os alimentos, o próprio Rei os reparte e passa para que os presentes possam desfrutar daqueles dons. Eu, me sentindo indigno e distante daquela realidade, não ouso me aproximar e mantenho-me naquele lugar em que estava. À direita do Rei estava a Rainha, que parecia ter mais idade do que ele, apesar de ter uma beleza feminina inigualável, chamando a atenção de todos os presentes.

Quando o último pedaço de pão ia ser partido, o qual seria destinado ao Rei e à Rainha, todos os presentes param de falar e dirigem seus olhares para o Rei, como que na expectativa de que ele faça algo. O Rei, então, toma aquele pedaço de pão, o parte em três pedaços, deixa um com a rainha e caminha na minha direção, com um daqueles três servos. Um medo se apossa da minha alma e caio por terra quando ele chega próximo de mim.

O brilho de sua coroa quase me cegava, mas foi se tornando mais confortável a cada passo que ele dava em minha direção. Eu, ainda caído, olho para o Rei, agora em minha frente. Ele estende a própria mão para me levantar, e eu o faço. «Meu filho, de que tens medo?», disse o Rei. «Senhor, eu não sou digno de que venhas até mim, mas dizei uma palavra que farei como queres», respondi. Ele então olha para o seu servo, que tira a capa do Rei e a coloca em mim. O Rei apenas olha para mim com aquele calmo olhar com que me fitara mais cedo e, partindo o pão, me entrega.

Ele dá um sinal e todos começam a comer, sendo que agora ele pediu aos servos que armassem uma mesa apenas para nós, e comeu diretamente comigo. Eu não entendia o que estava se passando, e o gesto do Rei me emudeceu até o último osso. Não conseguia nem dizer “obrigado”, por pensar que não seria o suficiente para expressar a gratidão que sentia naquele momento.

O Rei também não falava nada, e não precisava. Isso porque era, de algum modo, perfeitamente compreensível e incompreensível aquele gesto feito. Ele pediu a sua taça de vinho e dela também bebi. Ao dar o último gole da taça, ele olhou pra mim e com um sorriso e disse-me «Ide, está entregue!». Antes que eu pudesse perguntar o significado daquelas palavras, subitamente todas as luzes se apagaram e eu perdi a consciência.

Acordei no chão, logo em frente àquele pequeno edifício. Três pessoas estavam em minha volta. «O que aconteceu?», perguntei. O senhorzinho que sempre passeava por essas bandas me respondeu «Você estava caminhando, meu filho, e de repente te vir cair logo aqui na calçada». Então me levantei, disse a eles que podiam voltar para casa que estava bem, mas ao menos aquele senhor insistiu em me acompanhar de volta.

O edifício ainda estava ali na minha frente. Assim que os outros se dispersaram, perguntei ao senhor do que se tratava aquela construção diferente. «Estão construindo uma Capela aqui neste local. Só espero que os malditos sinos que pensam em colocar não perturbem o meu precioso silêncio...», ele respondeu. Não disse uma palavra até chegar em casa. Me despedi do senhor, e entrei, ainda me perguntando o significado de tudo o que havia acontecido. Certamente deveria ser alguma alucinação decorrente do desmaio.

Já era muito tarde «Fiquei desacordado por muito tempo», pensei, e me perguntei «Que horas são?». Ao olhar para o relógio de pulso e descobrir que era meia-noite e meia, coloquei um sorriso no rosto e repeti comigo mesmo «Está entregue ».

Uma hipótese

O que é um texto? Se um texto for a lista de símbolos que ele representa, duas pessoas diferentes podem ler o exato mesmo texto e ter interp...