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domingo, 15 de junho de 2025

Uma hipótese



O que é um texto? Se um texto for a lista de símbolos que ele representa, duas pessoas diferentes podem ler o exato mesmo texto e ter interpretações diferentes — desde que os símbolos signifiquem coisas diferentes para essas pessoas. Isso também significaria que traduções seriam impossíveis. Por exemplo, as proposições: “O Céu é Azul” e “The Sky is Blue” têm o mesmo sentido, mas são escritas em línguas diferentes. Disso decorre que o texto é o significado por trás desse mesmo texto, e uma proposição pode ser julgada como verdadeira ou falsa a partir do significado original.

Digamos que exista uma língua chamada “tortuguês” e que, nessa língua, “Azul” signifique “Rosa” e “Rosa” signifique “Azul”. Ora, se um falante de tortuguês afirmasse para mim (consideremos que desconheço sua excêntrica linguagem) que o “Céu é Rosa”, o sentido original, isto é, o significado da proposição, continua verdadeiro, porque em sua linguagem “Rosa” significa “Azul”. Eu, porém, sem o contexto original do brevíssimo dicionário de tortuguês (há apenas duas palavras: Rosa e Azul), estaria justificado em ter sua afirmação como falsa.

Agora suponhamos que, depois de eu expulsar o tal falante de tortuguês da minha frente com sua terrível e absurda proposição de que o “Céu é Rosa”, eu convocasse um grupo de amigos falantes do verdadeiro português para condenar a proposição de — o apelidemos de — Tigor. Então, suponhamos que formulássemos uma declaração conjunta que afirmasse que o Céu é, de fato, Azul, e não Rosa. Nesse caso, estaríamos completamente justificados — e talvez, quando compreendêssemos que Tigor, na verdade, era falante da estranha língua do tortuguês, pudéssemos dar boas risadas e reconciliar-nos na mesma verdade de que “O Céu é Azul”, sendo que, em tortuguês, “Azul” quer dizer “Rosa” e “Rosa” quer dizer “Azul”.

Agora suponhamos que, nesse grupo de amigos — a Sociedade do Azulamento Terrestre — eu tenha deixado escapar que um desses mesmos camaradas era, em oculto, um falante de tortuguês: Talvino. Talvino partilhava da estranha ideia de que o Céu era, de fato, Rosa — e não digo em tortuguês, mas em português puro e claro! Não que ele conhecesse o português — apenas digo que “em seu sentido último ele acreditava nessa proposição”.

Ora, em tortuguês, ele acreditava, então, na proposição de que “O Céu é Azul” — e certamente achou curioso que havia tantas outras pessoas que partilhavam — do que ele chamava, ao menos — de seu Azulismo. Bom, de todo modo, Talvino não tardou em assinar a declaração conjunta e condenar Tigor como um execrável Rosista.

O problema veio quando, após a reunião condenatória, surgiu a ideia de se elaborar um brasão para a recém-fundada sociedade. Talvino foi o encarregado e a única conclusão a que chegou, após algumas horas, foi a de que a cor central deveria ser, obviamente, Azul! Ora, imagine o espanto da Sociedade quando se deparou com o esboço, simples, mas significativo, de seu novo brasão. Desnecessário dizer que, após esse episódio, Talvino foi expulso por sua obstinada e persistente adesão ao Rosismo.

Após esse longo, talvez confuso e mesmo repetitivo conto, o questionamento que fica é se eu e Talvino, de fato, assinamos a mesma declaração — e se os Talvinistas deveriam se preocupar com o fato de que a assinatura de seu fundador está ao lado da de pérfidos Azulistas. Parece-me que não há peso algum sobre o fato de que ambos os partidos assinaram a declaração original — em verdade, assinaram textos diferentes. 

P.X.,

Igor

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