Os aborígenes da Austrália são um povo interessante. Eles se encontraram separados da humanidade civilizada por boa parte de sua existência, e ainda assim são reconhecidamente tão humanos quanto qualquer ser humano que você possa encontrar lavando suas meias com as últimas bugigangas inventadas ou brigando com sua esposa numa manhã de domingo.
Mas isso não vem tanto ao caso. O fato a que quero chamar a atenção do leitor astuto é que há algo que identificamos nesses povos que os tornam tão humanos quanto nós, e penso que é muito óbvio do que se trata. Podemos ficar aqui horas e horas tentando discutir o que faz de alguém um alguém e não um algo, mas dificilmente discordaremos de um aspecto fundamental. Se algo busca explicações, esse algo na verdade é um alguém.
Desde nossos antepassados mais primitivos e até o ponto em que temos acesso à história redigida dos seres humanos, esse fato é o que permanece imutável. É claro que, quando eles percebiam a regularidade do mundo, a conclusão mais natural que tiravam disso é que uma inteligência maior que a deles próprios era a causa, a explicação dessa ordem. Os primeiros filósofos foram aqueles homens das cavernas, que olharam para as estrelas e notaram o curioso fato de que elas sempre apresentavam padrões de regularidade. Diante disso se perguntaram: por quê?
Os gregos foram os primeiros a entenderem que, quaisquer fossem as explicações naturais para aqueles fenômenos, a sua estrutura deveria ser entendida de antemão. Eles notaram, por exemplo, que quaisquer fosse o objeto observado na natureza, ele deveria ser um composto de forma e matéria, visto que conseguimos abstrair universais de objetos particulares. Além disso, observaram o fato curioso de que ocorre mudança, e daí tiraram que isso se dá por uma distinção entre potencialidade e atualidade.
Mais astutos que seus sucessores contemporâneos, os gregos perceberam as implicações de suas conclusões. Aristóteles nota que tudo que se move é movido por algo, e esse algo confere poder causal àquilo que é movido. Ora, sem poder, não há causa alguma, então deve haver uma fonte desse poder causal que é transmitido através da série. É o dito Motor Imóvel.
Quando a ciência natural se divorciou definitivamente da filosofia, na divisão de bens aquilo que se chamava de metafísica acabou sendo deixada para a parte dita mais fraca da relação. “Qual a necessidade dessa futilidade obscurantista?”, poderia pensar uma personificação da ciência não muito longe da realidade. Bem, a necessidade em verdade é muito grande, por pelo menos dois motivos.
Primeiro porque a caracterização da metafísica como uma espécie de mágica não só é equivocada como se distancia em grau elevado do que corresponde à realidade do assunto. Na verdade, a metafísica é o que justifica grande parte do que se realiza em nome da ciência, como a maioria dos filósofos percebeu durante a história da humanidade. Conceitos como forma, essência, mudança e causalidade são coisas pressupostas pela ciência, de modo que mesmo em princípio ela não as pode justificar.
E isso nos leva ao segundo e mais pernicioso motivo pelo qual a metafísica é absolutamente indispensável: quando eliminamos uma, apenas a substituímos por outra, e se o fizermos arbitrariamente (como ocorreu na revolução científica), acabamos por negar aspectos fundamentais que nos conectam com a realidade objetiva das coisas (minando a possibilidade de realização da própria ciência em nome de que eliminamos os aspectos metafísicos da realidade). Podemos chamar a metafísica materialista de A-metafísica, mesmo que continue sendo metafísica.
O que quero dizer com isso? Descartes, Galileu e companhia não desenvolveram uma metafísica para justificar o método que aplicavam, ou se o fizeram, criaram mais problemas que os que se propuseram a solucionar. Seus sucessores acabaram tomando o método por metafísica, o que gerou um declínio progressivo de todas as áreas do conhecimento que fossem desvinculadas das ciências naturais.
Assim, explicando as causas intermediárias dos eventos que ocorrem, os novos materialistas operam por meio da ilusão que chegaram à realidade última das coisas, quando na verdade nem começaram a arranhar a superfície. É essa ilusão que faz parecer que conceitos como o Deus do Teísmo Clássico são explicações no máximo pseudocientíficas que foram postuladas para solucionar problemas triviais como o movimento das órbitas celestes.
O fato é que Deus nunca esteve entranhado num aspecto natural do mundo, mas numa esfera metafísica. É o Motor Imóvel, a causa primeira e última de todas as coisas, Aquele cuja Essência é a própria Existência. Quando Moisés O pede para contar Seu Santo nome, Ele responde “Eu Sou aquele que Sou”. O próprio Ser em Si Mesmo.
Como então a ciência se relaciona com a fé? Alguém pode se perguntar. Bem, parte da pergunta já foi respondida em parágrafos anteriores. A ciência é a descoberta das causas secundárias, isto é, das causas que se posicionam entre Deus e as diferentes proporcionalidades da Criação. Quando um astrofísico, por exemplo, abstrai do comportamento das órbitas celestes equações matemáticas, e por meio delas faz extrapolações e previsões, tudo o que ele fez foi estudar sua estrutura. Nas palavras do filósofo naturalista Bertrand Russel:
“Nem sempre é entendido o quanto excessivamente abstrata é a informação que a física teórica tem para dar. Ela fornece certas equações fundamentais que a possibilitam lidar com a estrutura lógica dos eventos, enquanto deixa completamente desconhecido a natureza intrínseca dos eventos que possuem a estrutura. Nós apenas sabemos a natureza intrínseca dos eventos quando eles ocorrem conosco. Absolutamente nada na física teórica nos possibilita dizer coisa alguma sobre a natureza dos eventos em outros lugares. Eles podem ser exatamente como os eventos que ocorrem conosco, ou ser completamente diferentes de modos completamente inimagináveis. Tudo o que a física nos dá são certas equações que demonstram as propriedades abstratas de suas mudanças. Mas sobre o que é que muda, e do que muda e para que muda – sobre isso, a física permanece silenciosa” (1985, p. 13 – tradução livre)
Dessa forma, quando é presumido que a ciência nos dá uma descrição exaustiva da realidade, o que se faz é basicamente descartar os aspectos qualitativos da matéria como irrelevantes, enquanto que são exaltados aqueles que podem ser descritos por meio de equações matemáticas. Mas esses aspectos (qualitativos) não só existem, como mesmo a princípio a ciência nunca poderá nos dizer nada a respeito deles.
A implicação desse fato é que precisamos de algo para além das ciências naturais que possa atacar esses outros problemas, que são no mínimo tão pertinentes quanto aqueles que são solucionados pelas equações da física. A infelicidade do mundo moderno é que se um conhecimento não tem aplicação prática, ele é jogado para a esfera individual e deve permanecer lá como mera “opinião”.
E é aí que entra a filosofia. Essa área do conhecimento é a que faz a ponte entre o imanente e o transcendente, isto é, é por meio dela que entendemos a relação entre as ciências naturais e a teologia. É verdade que é por meio de argumentos metafísicos que chegamos à existência do Deus do Teísmo Clássico, e estes pertencem apenas à filosofia. Contudo, é possível utilizar as ciências naturais para corroborar uma premissa num argumento filosófico cujas conclusões têm importância teológica (falando assim fica bonito, né?). Mas deixe-me ilustrar o que quero dizer.
Atualmente existe um argumento cosmológico para a existência de Deus que se chama argumento cosmológico Kalam, que pode ser formulado da seguinte forma:
(1) Tudo o que começa a existir tem uma causa para a sua existência(2) O Universo começou a existir(3) Portanto, o Universo tem uma causa para a sua existência
É claro que, mediante a análise de quais atributos essa causa deveria ter, chega-se a algo que pelo menos tem algum grau de semelhança com aquilo a que sempre se entendeu como Deus. Mas no presente momento, apenas quero ressaltar o fato de que a premissa (2) pode ser corroborada por meio das evidências científicas que temos à disposição que afirmam o início absoluto do Universo no Big Bang, por exemplo.
Mas se reconhecemos que existem áreas do conhecimento que produzem conclusões tão racionais quanto as que a ciência nos oferece, e que elas podem ter claras implicações teológicas, evidente que podemos falar da fé racional, ou seja, da crença em Deus racionalmente justificada e que pode ser defendida não como mera “opinião”, mas como argumento objetivo. É claro que nem todo mundo ficará contente com o que isso pode implicar para as discussões numa esfera pública e farão de tudo para afastar esse entendimento da fé do homem comum.
Para concluir o raciocínio, queria colocar um ponto observado por C. S. Lewis, em seu livro "A abolição do homem", que trata majoritariamente dessa prática comum entre os apoiadores da modernidade de tentarem abolir tudo aquilo que não encaixa no seu método. O grande problema é que acabam por abolir o próprio homem:
“O último estágio terá chegado quando o Homem tiver obtido controle total sobre si mesmo [...]. A natureza Humana será a última parte da Natureza a se render ao Homem. A batalha terá, então, sido vencida. Teremos ‘arrancado o fio de vida das mãos de Clotho’ e, a partir daí, estaremos livres para fazer da nossa espécie o que bem entendermos. A batalha terá sido vencida, de fato. Mas quem, mais precisamente, terá vencido?” (A abolição do homem, p. 59)

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