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sábado, 22 de agosto de 2020

AS 12 SEMANAS E O ESPANTALHO (por Igor Gaviano)

Nesses tempos não é nada raro encontrar acadêmicos sérios e respeitados que defendam que a terminação tardia da gravidez deva ser aceita, legalizada e normalizada universalmente. Alguns países parecem estar, igualmente, seguindo essa tendência.

Que há pessoas que comemoram o fato como um avanço no "empoderamento feminino" e na mentalidade geral da população é algo que, por mais comum que seja, continua sendo chocante. Felizmente, o brasileiro médio ainda não chegou bem lá, apesar que penso que não esteja trilhando um caminho que vá evitar essa conclusão.

Pensando e discutindo sobre isso, tive a ideia de inserir uma "parte II" à nossa coletânea de falácias lógicas, visto que um bom número delas é utilizado em discussões de internet e, para aqueles talvez não familiarizados com elas, têm um grande peso e podem cegar as pessoas para os argumentos sendo oferecidos.

DISCLAIMERS E TERRENO COMUM

Recentemente, eu recebi o seguinte comentário em uma rede social:

Para entender o que há de errado a priori com ele, preciso que demos alguns passos para trás e falemos de algumas coisas mais fundamentais (só pra esclarecer, foi um comentário sobre o compartilhamento dessa notícia).

A primeira delas é a seguinte: o resto do argumento vai tomar por pressuposto que a moralidade é objetiva, já que uma discussão desse tema merece um post próprio e, como eu já argumentei em outro lugar, nem faria sentido discutir questões éticas se a moralidade fosse relativa. Pense bem: se a moralidade não tem nada de objetivo para se discutir a respeito, qualquer discordância nesse sentido (em qualquer grau) é mera subjetividade. Se eu achar, por exemplo, que torturar crianças por diversão é uma coisa boa dada a premissa que a moralidade é subjetiva eu não posso estar certo ou errado, mas apenas penso de maneira diferente.

Felizmente, a maioria das pessoas, mesmo que inconscientemente, concorda com isso. As mesmas pessoas que dizem que a moralidade é subjetiva e relativa a tempo, lugar e cultura são as que acham que, por exemplo, a abolição da escravidão, a concessão de direitos iguais e a defesa de minorias fazem com que a moralidade moderna seja superior àquela que a antecedeu. Ora, mas se a moralidade é subjetiva, como podemos falar em progresso ao invés de mera mudança?

Assim, passamos pro segundo ponto em que, ao menos ao meu ver, não deveria haver discordância séria, a saber, dentro das coisas que são objetivamente erradas encontra-se a ação de direta e intencionalmente tirar uma vida humana inocente. Isso é crucial porque, concordando no caráter fundamental do direito à vida e que ele deve ter amparo legal, a discussão sobre o tema do aborto se afasta de "red herrings" e passa a girar em torno do tema central de se o feto é ou não uma vida que deva ser preservada.

Estabelecido o terreno comum, podemos passar para o próximo tópico, que é...

NÃO BATA NO ESPANTALHO!

Dentro do campo das falácias lógicas, uma das que mais comumente passa desapercebida é a Falácia do Espantalho. Para explicar, pensemos num exemplo:

(Falante A): "A moralidade é objetiva, e penso que precisamos de Deus para explicá-la"

(Falante B): "Me desculpe, mas se você faz algo só com medo de queimar eternamente no quinto dos infernos, isso não é boa conduta..."

Evidentemente, o que há de errado com o Falante B é que ele mal entendeu o que o Falante A estava argumentando, mas pressupôs que sim e atacou uma versão mais fraca do argumento do seu oponente porque é mais fácil que refutar o argumento original.

E que isso é uma falácia deve ser óbvio pelo simples fato de que, refutando uma versão mais fraca do argumento do seu oponente, você não derrotou o argumento dele!

Então, quando nosso comentarista diz: "Se sua religião impõe regras, cumpra-as, mas não as imponha a toda uma sociedade composta por pessoas de diferentes religiões ou sem uma." ele nada mais faz do que comete uma Falácia do Espantalho, já que em momento algum se apelou para Livros Sagrados, Concílios, Autoridades Religiosas ou nada do tipo para fundamentar o argumento.

Isso fica ainda mais claro quando considera-se o terreno comum que já estabelecemos. Uma vez que concordamos que, tratando-se de uma vida inocente, não há motivo que direta e intencionalmente justifique sua retirada, é evidente que não se trata de uma questão religiosa stricto sensu (claro que eu argumentaria que, no fim do dia, Deus é necessário para explicar as crenças morais, mas isso também daria um post próprio), ao menos no sentido em que não é necessário fazer referência à religião.

Na verdade, dependendo da resposta de se o feto é ou não uma vida humana e do terreno comum compartilhado, é possível que se convença alguém da imoralidade do aborto sem nem mesmo tocar no assunto de se qualquer religião específica apoia ou não o ato, tendo inclusive as implicações legais acarretadas por esse ponto de vista.

A LAVAGEM CEREBRAL

Como já comentei em outro post, comentários ad hominem dispensam qualquer tratamento sério para aqueles que queiram ter uma discussão civilizada. Porém, eu percebi outro fato curioso na afirmação do nosso comentarista de que os religiosos teriam sofrido uma "lavagem cerebral" e que é por isso que eles discordam do ápice da racionalidade que é o posicionamento dele.

Deixando de lado as considerações que fiz sobre se a questão da legalização do aborto é ou não uma questão fundamentalmente religiosa, digamos que ele estivesse certo. Na verdade, digamos que a caricatura de que religiosos são pessoas anti-ciência, que não pensam, que são ignorantes e não têm argumentos fosse toda ela verdade, por mais absurda que seja.

Mesmo assim, se fizéssemos a pressuposição de que, por causa disso, essas pessoas estariam enganadas, cometeríamos outra falácia, a Falácia Genética!

MAS O QUE TEM A CIÊNCIA?

Outra consideração interessante feita pelo nosso interlocutor foi a batida referência de uma suposta dicotomia entre ciência e religião, da qual eu não tenho a pretensão de comentar sobre neste post (falo um pouco sobre isso aqui). Felizmente, nesse contexto, nem seria necessário e o motivo, por mais mal compreendido que seja, no fim das contas é muito simples: a ciência não é auto interpretativa.

Existem certas coisas que, pela sua própria natureza não podem ser investigadas utilizando-se o método científico, por mais útil que ele seja.

Poderia citar muitos exemplos, mas penso que o mais interessante deles seria o próprio método científico! Pare para pensar, se a ciência tentasse se "auto demonstrar", isso cairia num círculo argumentativo e seria, novamente, falacioso.

O exemplo que é pertinente neste post é o da ética. A ética não pode ser descoberta analisando-se a estrutura atômica de um fluido ou observando-se pela lente de um telescópio. Assim, qualquer informação que a ciência possa fornecer para ajudar a esclarecer a questão, ela nunca vai pôr nela um ponto final, já que, quaisquer que sejam essas informações, será o crivo da metafísica que, no fim das contas, vai fazer o julgamento acerca da racionalidade de cada um dos lados.

Assim reivindicar a ciência para um lado ou outro, tratando o seu oponente como "anti-científico" ou estúpido é nada mais que uma confusão de termos e, se me permite dizer, um pouco de desprezo pela pessoa com quem se argumenta.

ENFIM...

No fim das contas, eu mal toquei no mérito da moralidade da prática do aborto dentro do período das 12 semanas, mas esse não era o intuito do post, e não era necessário para atingir seu propósito. Penso que, acima de tudo, uma discussão falaciosa é uma discussão improdutiva, e se não se separar o joio do trigo, há o grande risco de perda de tempo e até mesmo de amizades no processo!

Isso não foi um ataque pessoal a ninguém e espero que tenha contribuído para aumentar o nível do diálogo nas redes sociais de vocês.

Pax Christi

2 comentários:

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