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domingo, 25 de outubro de 2020

Tempo, Eternidade, Aristóteles e Engenharia (por Igor Gaviano)

Meu professor de Mecânica dos Fluidos 1 decidiu fazer uma digressão na matemática do curso e nos pediu para assistir a uma palestra sobre a filosofia do tempo com o professor Clóvis de Barros.

    Decidi publicar minha resposta a algumas questões propostas por aqui, já que giram em torno dos meus assuntos de interesse.

Enjoy! 😁

DO MITO À SOFIA

    Quando o ser humano se vê consciente de sua própria existência e observa o mundo do seu ponto de vista, ele passa a buscar palavras e conceitos que consigam exprimir a realidade percebida. A essa perspectiva "de baixo para cima" se dá o nome de visão cenoscópica da realidade.

    Examinando o mundo cenoscopicamente, o sol nasce e se põe, os ventos soam e os pássaros cantam. As estrelas se movem e a terra parece plana. 

    É claro que, por meio do desenvolvimento de mecanismos de medição e de conceitos matemáticos, o ser humano passou a transcender o mundo de sua observação sensorial ao espaço das ciências naturais. Ele descobriu que, na verdade, não é o Sol que se põe, mas a Terra que gira ao seu redor. A Terra parece plana a olho nu, mas o fato de que o mastro dos navios desaparece depois de seu casco parece desafiar esse conceito. Realmente, por meio de argumentos matemáticos, os gregos já provaram que a Terra não era plana e isso foi tido como pressuposto desde esse período, passando pela Idade Média e chegando até nós, por mais contra-senso que possa parecer de uma perspectiva cenoscópica.

    A essa visão "de cima abaixo" se dá o nome de visão ideoscópica.

    Importante ressaltar, contudo, que por mais "racionais" ou "pé no chão" pensarmos ser, todos nós vivemos de uma maneira cenoscópica. O cientista (com notáveis e excêntricas exceções), sendo um homem comum, não foge do padrão. Depois de abandonar seu laboratório, ele não tarda em tomar uma xícara de café, ir para casa e encontrar sua esposa e filhos e tratar como secundário tudo aquilo que ele trata no laboratório. É tão ligado à realidade "aqui embaixo" quanto qualquer outra pessoa, por mais "racional" que seja.

    É claro que a própria equivalência dos termos "racional" com o pensamento cientificista moderno é algo que por si só levanta sobrancelhas, e eu diria que além de errôneo é perigoso e contraditório. Mas isso pode ser discutido em outro lugar.

    O ponto sobre o qual quer levantar alguma luz neste post é o de que, no cotidiano, observamos o mundo da exata mesma forma que nossos ancestrais, de modo que muitas das explicações que eles encontraram para aquilo que observavam deveriam ressoar conosco. E o mito nada mais é do que isso.

    A mitologia não é uma mentira. Na verdade, há quem diga que o mito é uma realidade mais verdadeira que qualquer jargão técnico que podemos utilizar para expressar aquilo que observamos. Contra a percepção atual, o mito não é menos verdade por ser um mito, e sim mais verdade.

    Mitos exprimem realidades transcendentes e ideias que podem ser digeridas por qualquer pessoa que tenha o mínimo de experiência cenoscópica da realidade (i.e. todas elas). 

    Tome, por exemplo, o Gênesis. Como cristão, eu creio firmemente na Palavra de Deus e que tudo o que está na Bíblia é verdadeiro. Entretanto, uma história verdadeira não significa uma história literalisticamente descrita.  

    Ateus contemporâneos, como Richard Dawkins, Christopher Hitchens ltda. adoram apontar o fato de que a revolução científica proporcionou uma luz num mundo de trevas, mundo esse controlado pelo obscurantismo, pela superstição e pela crença cega em dogmas empurrados goela abaixo pelos líderes religiosos, e hoje em dia não precisamos mais desses ditos contos de fadas que pessoas criaram para se reconfortar quando perceberam que não há Deus, não há alma e nada importa.

    O quanto essa perspectiva é incoerente dispensa comentários e também não é o propósito deste texto. O propósito é esclarecer os fatos de que, por exemplo, a Terra não ter sido criada em literalmente sete dias, há 6000 anos ou mesmo a mulher ter sido gerada literalmente do lado do homem pouco importam para a realidade que é expressa em Gênesis.

    A narrativa da criação em Gênesis significa que Deus é soberano e distinto da natureza. Toda a criação louva o Senhor Deus (Dn 3, 57-88.56), criação esta que é boa em essência mas que foi corrompida pelo pecado. Ao mesmo tempo, a criação não foi algo instantâneo e sim gradual e que demorou um período de tempo. O Universo não é eterno e o homem é composto de alma (sopro divino) e matéria (daí a imagem do barro). A mulher foi criada do lado do homem porque é igual em natureza, ou seja, Deus não a faz a partir de sua cabeça, pois não foi feita para controlar o homem, nem de seus pés, pois não é inferior ao homem.

    Essa narrativa, evidentemente, comunica verdades muito mais profundas e atemporais que qualquer que seja o consenso científico de uma geração. Isso é tão verdade que cerca de 55% das pessoas de todo o mundo têm o Gênesis como um de seus livros sagrados.

    E não é como se o Gênesis fosse um exemplo isolado, mas um dentre quais podem ser multiplicados ad nauseam. Assim, o mito é uma maneira narrativa de expressar e transmitir verdades absolutas e atemporais, que podem ser compreendidas por todos os seres humanos em todos os períodos.

    A partir dessa ideia de que há essas verdades atemporais, os seres humanos sentiram a necessidade de uma sistematização e de fazer perguntas sobre a ontologia (i.e. a própria essência) das coisas. A filosofia, então, surge desses esforços de alguns homens de encontrarem conceitos e ideias que exprimissem, de maneira exata, aquilo que observavam cotidianamente.

    O maior mestre dessa arte foi, sem dúvidas, Aristóteles. A título de exemplo, Aristóteles se preocupava muito com a natureza da mudança e a sua ideia de que consiste essa mudança se tornaria uma das mais influentes na história do pensamento. Aristóteles diz que mudança nada mais é que atualização de uma potencialidade. Isto é, tudo que é, é em mistura de ato e potência. Entretanto, todo potencial que é atualizado deve ser atualizado por algo que já é atual. O fogo que esquenta a panela, por exemplo, deve já em si mesmo "conter o calor" que transmitirá à panela que transmitirá à água em seu interior, que transmitirá à casca do feijão, que transmitirá ao interior do feijão...

    Contudo, se isso é verdade, então qualquer ponto em que essa série de causas for interrompida, o resto dela também o é. Se não há chama, a panela não esquenta, a água não esquenta etc. Assim, deve haver uma fonte puramente atual, ou seja, actus purus, que transmite poder causal a toda essa séria de causas. E, como diria Santo Tomás de Aquino, a essa causa damos o nome de Deus.

    Assim, por meio de uma linguagem clara e precisa, foi possível chegar ao conceito de Deus, que já era muito familiar e tradado constantemente por meio de narrativas. Essa precisão é uma das marcas distintas da filosofia.

    Outra distinção é a inferência lógica a partir de premissas conhecidas. Se eu sei, por exemplo, que em Deus não há potencialidade, eu posso inferir que Ele não é material, pois tudo o que é material é composto de partes que potencialmente podem ser rearranjadas de várias formas, e se há potencialidade nisso, não pode fazer parte de Deus. De igual modo, Deus não pode ser temporal, visto que tudo o que está no tempo está sujeito a mudança e mudança é atualização de potencialidade, a qual não existe em Deus e assim por diante.

ARISTÓTELES E O TEMPO

    Tendo falado um pouco de mudança em Aristóteles, é importante ressaltar que o tempo para ele está intimamente vinculado a esse conceito. Para Aristóteles, o tempo nada mais é que a unidade que mede a mudança e, parando para pensar, isso se aplica até mesmo aos métodos mais modernos de medição do tempo.

    Um relógio radioativo, por exemplo, funciona por meio do decaimento de um átomo. Ora, se o átomo não decaiu ainda, ele tem a potencialidade de decair. Quando essa potencialidade é atualizada, aí temos nossa unidade de referência para a medição do tempo.

    Tudo isso está intimamente relacionado ao conceito de contínuo e discreto. Para alguns pré-Socráticos, como Zenão e Parmênides, a mudança não existe pois consiste na geração de algo a partir do nada, ou seja, se tenho a panela quente, por exemplo, é como se ela tivesse mudado de estado de frio para quente. Mas se a panela está fria (ser), como poderia ela se tornar quente (não ser)? Portanto, por mais que nossos sentidos possam sugerir que a mudança exista, ela é ilusória.

    Aristóteles, então, resolve esse problema justamente postulando os conceitos de ser em potência e ser atual. Se pegarmos o paradoxo de Zenão, por exemplo, em que se pretende provar que o deslocamento é impossível em essência, a resposta seria que, embora a distância seja potencialmente infinitamente divisível, ela não é atualmente infinita.

    Para os acostumados, é essa a essência do cálculo diferencial e integral!

   Assim, podemos traçar um contínuo que fornece um resultado para uma série que seja potencialmente infinita, mesmo que ela não seja atualmente dessa forma.

O TEMPO E A EPISTEMOLOGIA

    A epistemologia é a teoria do conhecimento e trata de como podemos conhecer as coisas, bem como se estamos justificados em acreditar em algo. Digamos, por exemplo, que um crime ocorreu. Uma certa pessoa é vista saindo da cena do crime no instante em que ele ocorreu, as roupas sujas de sangue e duas testemunhas independentes atestam o fato. Quando analisam a cena do crime, policiais encontram impressões digitais que pertencem ao exato homem que estava saindo da cena naquela hora.

P: Podemos acusá-lo?

R: Sim! Contudo, temos que fazer algumas distinções.

    Epistemologicamente falando, temos um sólido caso para a racionalidade da crença que o dito homem de fato cometeu o assassinato (A), isto é, temos evidências (E) tal que

P(E|A) >> P(E|~A)

    Contudo, essa probabilidade nunca será de 100%. É claro que o homem, por exemplo, podia ter acabado de sair de um açougue e um acidente fez com que ele se sujasse de sangue. Um de seus inimigos sabia que ele iria ao açougue naquele horário e cometeu o assassinato, plantando as suas digitais na cena do crime.

    Mesmo assim, dadas as evidências, você estaria epistemologicamente justificado em pensar que o homem cometeu o assassinato.

    Dessa forma, investigando a natureza do tempo, acredito estarmos epistemologicamente justificados em acreditar na sua existência, mesmo que não possamos provar definitivamente essa contenda. É claro que um argumento retorsivo poderia demonstrar a incoerência de se negar a existência do tempo, mas sempre haverá um sed contra i.e., alguém que discorde de alguma das premissas.

    Eu iria além: acredito que estaríamos mesmo epistemologicamente justificados em acreditar num tipo específico de disposição do tempo, que é o presentismo.

    Desde o desenvolvimento da Teoria Geral da Relatividade, uma tendência crescente é que se adote a Teoria B do tempo, em que se vê o tempo como uma quarta dimensão, ou seja, como se todos os instantes fizessem parte de um grande bloco (à la Interestelar). Contudo, isso é claramente ao menos questionável.

    Essa conclusão se dá principalmente por conta de alguns pressupostos positivistas tomados por Einstein quando formulou a teoria, de modo que é completamente possível formulá-la partindo-se do pressuposto de um referencial absoluto de tempo (visão Neo-Lorentziana).

    Pelo menos dois problemas são evidentes com essa teoria. O primeiro deles é: se o tempo é um grande bloco, então não há instantes e a mudança é uma ilusão. Mas se a mudança é uma ilusão, então como podemos raciocinar através de premissas que decorrem numa sequência lógica para alguma conclusão, incluindo a conclusão de que a Teoria B está correta? O outro tem a ver com a dificuldade de se imaginar viagens temporais, e as contradições lógicas decorrentes disso, o que não deveria ocorrer se o tempo fosse mais uma dimensão como qualquer outra.

    Assim, penso que a maneira certa de se raciocinar acerca do tempo é partir do pressuposto que nossas percepções sobre eles são verdadeiras, i.e., o passado e o futuro não existem, apenas o presente. A essa visão se dá o nome de presentismo (Teoria A do tempo) e estamos justificados em adotá-la.

QUE IDEIA MAIS ME CHAMOU ATENÇÃO?

    Gostei bastante de quando ele falou do tempo em Santo Agostinho, que é um dos doutores da Igreja que mais meditou sobre isso. De fato, para Santo Agostinho, a Eternidade Divina nada mais é que um eterno presente, e Deus cria o mundo continuamente. Isso decorre principalmente do argumento já apresentado e da consideração de que Deus deve ser atemporal.

O QUE PODE UM ENGENHEIRO TIRAR DISSO?

    O primeiro ensinamento a se tirar desses fatos é o resgate da tradição aristotélica de ver o tempo a partir da mudança, e entender que tudo o que há apresenta potencialidade, ou seja, tudo que existe tem disposições inatas pelo simples fato de ser uma instância daquela essência. Dessa maneira, por meio da retomada da associação entre tempo e mudança, espero que possamos reestabelecer as causas finais aristotélicas em nosso entendimento cotidiano, de modo a rejeitar o reducionismo tido por pressuposto no início da era moderna, já que este foi um processo reconhecidamente falho.

    Além disso, acredito que uma retomada da visão de mudança aristotélica (como dito inexoravelmente associada ao conceito de tempo) acompanha uma retomada da ética de virtudes de Aristóteles, que vê o certo como as disposições transcendentais da alma humana. Assim, essa maneira clássica de se olhar para a ética deveria ser retomada e reestabelecida em nossa tomada de decisões com respeito à profissão de engenharia na contemporaneidade.

LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ...

    E como isso se relaciona à minha percepção total da realidade?

    Para começar, a primeira coisa que pode ser apontada é o fato de que somos criaturas temporais e nossa materialidade é finita. Contudo, por meio do conhecimento de conceitos e formas, nossa alma racional entra em contato com uma realidade transcendente, de modo que somos um compósito de forma e matéria (como todo o resto das coisas) e a alma nada mais é que a forma do corpo

    Quando o corpo decai, a alma permanece num estado completamente diminuído, já que só está completa quando junta ao corpo. A única forma da alma racional continuar operando pós-morte é por meio de intervenção divina (excluindo o assunto da ressurreição que pode ser tratado em outro post).

    A consciência humana se relaciona com isso na medida em que nossos pensamentos são sempre direcionados a algo, ou seja, sempre pensamos sobre alguma coisa. Se eu penso que o gato está deitado na minha cama, por exemplo, isso significa que meu pensamento está direcionado ao gato. A analogia disso com as disposições naturais das coisas deve ser evidente, já que a chama em contato com a panela aponta para ou está direcionada a esquentá-la.

    Assim, dada uma definição mais ampla de matéria, a consciência no sentido de qualia observado é material, já que é apenas uma instância bem particular de um tipo de causalidade final. O que é exclusivo do ser humano é justamente sua alma racional, que pode entrar em contato com conceitos contínuos e eternos que não se encontram em lugar algum do mundo material, o que aponta para a sua imaterialidade

    Em resumo, o objetivo, ou seja, o fim último ou causa final de nossa existência é realizar as disposições para as quais estamos direcionados, a saber o supremo Bem e Digno de ser amado sobre todas as coisas, i.e., O que chamamos de Deus.


Pax Christi
I.G.


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